
Este livro foi digitalizado  por Emanuel Noimann dos Santos. Corrigido por Fabiana Martins
MUITOS SO OS CHAMADOS
Copyright by (c) Petit Editora e Distribuidora Ltda.- 1992/1997
1- Edio/impresso - fevereiro/92 - 5.000 exemplares U
2- Reimpresso - agosto/92 - 3.000 exemplares
3- Reimpresso - abril/93 - 3.000 exemplares
4- Reimpresso - agosto/93 - 3.000 exemplares
5- Reimpresso - julho/94 - 5.000 exemplares
6- Reimpresso - novembro/94 - 10.000 exemplares
7- Reimpresso - junho/95 - 10.000 exemplares
8- Reimpresso - maro/96 - 10.000 exemplares
9- Reimpresso - maro/97 - 5.000 exemplares
10a Reimpresso - agosto/97 - 10.000 exemplares         .
Capa, Criao e arte final:         Flvio Machado

Projeto grfico e Editorao eletrnica Petit - Editoria de Arte
Antnio Carlos; psicografado por
Vera Lcia Marinzeck de Carvalho. >
etit, 1996. - 133 p.
ISBN 85-7253-004-5
1.   Espiritismo      I.   Carvalho,   Vera   Lcia Marinzeck de.   II. Ttulo
' CDU: 133.9
ndices para catlogo sistemtico:
1. Mensagens psicografadas : Espiritismo       133.9
Direitos autorais reservados.  proibida a reproduo total ou parcial, de qualquer forma ou por qualquer meio, salvo com autorizao da editora. Ao reproduzir este
ou qualquer livro pelo sistema de fotocopiadora ou outro meio, voc estar prejudicando: a editora, o autor e a voc mesmo. Existem outras alternativas, caso voc
no tenha recursos para adquirir a obra. Informe-se,  melhor do que assumir dbitos.
Impresso no Brasil no inverno de 1997

MUITOS SO  OS CHAMADOS
-   Romance   -
Pelo Esprito Antnio Carlos

Vera Lcia Marinzeck de Carvalho

Correspondncia    para:
Caixa Postal 67545 - flg. fllmeida Lima       3?>T3IO3J-1 C6P 03102-970 - So Paulo - SP  


Outros livros psicografados pela mdium Vera Lcia Marinzeck de Carvalho
Com o Esprito Antnio Carlos
- Reconciliao  
- Cativos e Libertos  Copos que Andam Filho Adotivo      Reparando Erros A Manso da Pedra Torta     Palco das Encarnaes
- Aconteceu talism Maldito Com o Esprito Patrcia
- Violetas na Janela
- Vivendo no Mundo dos Espritos
- A Casa do Escritor
- O Vo da Gaivota ; .
Com espritos diversos
- Valeu a Pena
- Perante a Eternidade

Dedicamos:
A todos os servos de Jesus
que ajudam, curam, instruem
em nome do Pai,
chamando irmos ao Reino de Deus
e com seus exemplos, incentivando
muitos a se fazerem escolhidos.


Aos nossos amigos, nossa gratido.
Joo Duarte de Castro Antonina Barbosa Negro Anzia Alba Marinzeck Braghini
Minha homenagem com todo meu amor filial  minha me Amaziles Candiani Marinzeck, que h tempo tem no Plano Espiritual sua moradia.
A Mdium



 ndice 1 O Diploma    11
2 Recm-Formado    18
3 A Doena    24
4 Esperana    30
5 No Centro Esprita    37
6 A Cura    44
7 O Inesperado    50
8 Pesadelo    58
9  Beira da Loucura    65
10 Vagando    75
11 De Volta ao Lar    86
12 O Socorro    94 13 Aprendendo 102
14 A Visita 109
15 A Excurso 117
16 Muitos So os Chamados 126



Diploma
Palmas ainda se ouviam pelo auditrio da Universidade. Grupinhos se
formavam, eram os formandos que conversavam alegres com familiares e amigos,
recebendo cumprimentos.

os formandos que conversavam alegres com familiares e amigos, recebendo cumprimentos.
Marcos estava com seus familiares, quando Romeu, seu amigo e formando, abraou-o alegremente, e apresentou-o  noiva:
- Esta  Mara - disse sorrindo. - No  linda? Este  meu amigo Marcos.
- Oi! - saudou sorridente Mara.
- Muito prazer! - Marcos respondeu, observando-a. Um outro grupo de formandos se aproximou, Romeu se
voltou para conversar com eles. Marcos no conseguiu desviar os olhos da noiva do amigo, estava encantado com sua beleza extica; loira dos olhos verdes, lbios 
bem feitos, estava vestida com muito bom gosto e elegncia. Mara tambm observou o amigo do noivo, com um sorriso misterioso.
Romeu despediu-se dos amigos e voltou novamente para perto da noiva. Nesse instante, aproximou-se do trio Rosely, a namorada de Marcos.
Novas apresentaes. j conhecia So Paulo? indagou Rosely  Mara.
- Oh, sim! J vim vrias vezes  Capital paulista, fico os dias na casa de minha tia, que mora na Casa Verde, logo ali...
Mara falou devagar o endereo olhando para Marcos. Mara, vem, querida, quero despedir-me de outros colegas. Romeu estava delirante, amava a profisso que escolhera, 
sempre tirara as melhores notas. Moo agradvel, simptico, de cabelos muito negros como os olhos, no era muito alto, mas o mais novo da turma. Sua famlia morava 
no interior de
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-VERA LCIA MARINZECK DE CARVALHO / ANTNIO CARLOS -
So Paulo, e ele viera estudar Medicina na Capital do Estado. Ele e Marcos se tomaram grandes amigos.
- Vamos! - exclamou Mara, no deixando de corresponder aos olhares de Marcos.
Abraaram-se os jovens formandos desejando, um ao outro, sucesso. Foram anos, juntos, de estudo puxado e agora se viam coroados de xito com o diploma recebido.
Todos contentes. Muitas conversas, vai-e-vem de pessoas. Marcos procurava ter  vista Mara, e seus olhares cruzaram-se vrias vezes. Marcos sentiu-se fascinado por 
aquela vnus loira, e Mara, dengosa, correspondia com olhares e sorrisos a insistncia muda do amigo do noivo.
S Rosely percebeu, mas se manteve discreta como sempre, procurando ficar mais perto do namorado.
A famlia de Marcos estava orgulhosa e, com suas melhores roupas, participava da conversa num grupinho de amigos e conhecidos.
O salo e o ptio foram se esvaziando, os formandos retiravam-se com os familiares. Marcos aproximou-se de Romeu para as despedidas. Deram-se um forte abrao. Marcos 
aproximou-se de Mara, enquanto o amigo despedia-se de Rosely.
- Espero, Mara, v-la mais vezes, encantei-me com sua beleza e graa.
- Falei o endereo de onde estou hospedada. Recorda?
- respondeu a moa em tom baixo e sorrindo.
- De cor - falou baixinho.
E, porque Romeu se aproximasse deles, Marcos continuou a falar, como a completar um assunto:
- No v maltratar meu amigo, cuide bem dele. Tive muito prazer em conhec-la.
Separaram-se. O pai de Marcos, sr. Dlson, se aproximou do filho.
- Vamos embora, Marcos; Trcio foi buscar um txi. Conforme determinara sua me, d. Adelaide, iriam
embora de txi, pois aquela era uma ocasio especial, no ficaria bem ir de nibus com aquelas roupas de gala, e tambm porque j era tarde.
- 12 :

MUITOS SO os CHAMADOS
Rosely voltou junto, morava perto do apartamento de Marcos. Eram namorados h doze anos. Isto fazia com que ouvissem gozaes dos amigos e vizinhos. Rosely era graciosa, 
morena clara com grandes e expressivos olhos castanhos e cabelos longos. Trajava um bonito vestido, ao contrrio da namoradinha de Marcos, que era simples demais 
para chamar a ateno.
Chegaram. O prdio era simples, subiram todos ao apartamento e conversaram animados, trocando comentrios sobre a festa.
Marcos estava distrado, pensava na noiva do amigo, e suspirou:
- Estou cansado, desculpe-me, Rosely, vou dormir.
- Com tantas emoes, s pode estar exausto, v descansar, querido - disse a me do rapaz, que no parava de olh-lo com a bata negra de formando, alugada to caro.
- Boa-noite! - disse alto uma senhora, entrando na sala. Era d. Carmem, av materna de Marcos, que morava no apartamento ao lado. Tinha nas mos um embrulho.
- Marcos - disse a senhora, muito contente -, isto  para voc. Desculpe-me por no ter ido  solenidade. Estou velha e estas festas me cansam tanto!
- Obrigado, vov, no precisava me dar presente. Abriu, contente, adorava ganhar presentes. Era uma bonita
e cara camisa. Com a chegada da av, novos comentrios sobre a formatura. D. Carmem aproximou-se do neto:
- Marcos, j agradeceu a seus pais?
Marcos riu, e pensou: "Agradecer a meus pais? S minha av mesmo para ter esta idia. Eu que estudei tanto..."
- Marcos - continuou a simptica senhora -, voc sabe quantas horas trabalharam Dlson e Adelaide para form-lo? Deve sua formatura a eles. Tantos jovens querem 
estudar e no o conseguem, pois tudo  to caro: livros, escolas etc.
- Compens-los-ei mais tarde. Quando ficar rico, eles se aposentaro, a senhora ir ver.
- Se voc pensar s em enriquecer, no ser bom mdico, eu...
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VERA LCIA MARINZECK DE CARVALHO / ANTNIO CARLOS
- Vov, vov! - Marcos interrompeu-a. - Amo a Medicina e j sou um bom mdico.
A senhora olhou-o, penalizada; Marcos se incomodou com a censura muda e saiu de perto dela. Gostava da av, mas, para ele, j estava mesmo velha.
Todos conversavam animados, todavia Marcos sentiu vontade de ficar sozinho.
- Boa-noite! vou descansar - disse, alto.
- E Rosely? - indagou Solange, a irm caula de doze anos. - Como vai ela embora? J so duas horas da madrugada!
- Acompanho-a. Levo voc para casa, vamos. "Trcio, meu irmo, quebrou o galho" - pensou Marcos
despedindo-se da noiva com um simples "tchau".
Retirou-se da sala e foi para seu quarto. Pensou:
"Gosto dela, mas no sentia vontade de lev-la para casa e conversar sobre os mesmos assuntos."
Parou na frente do espelho e viu sua imagem refletida. Com aquela bata negra parecia mais alto e musculoso. Sorriu satisfeito: era bonito, pele morena, cabelos negros 
e olhos azuis escuros; enquanto sorria, deixava aparecer os dentes claros e perfeitos.
Olhou para seu diploma:
"Um pedao de papel escrito e desenhado, bonito, mas s um pedao de papel". Entretanto, representava a confirmao de anos de estudo e de que estava apto a exercer 
a profisso de mdico.
Marcos repartia o quarto com o irmo Trcio e, naquele momento, torceu para que ele demorasse, para poder desfrutar alguns momentos a ss.
"Meu irmo deve estar com inveja" - pensou.
Trcio prestara vestibular para Medicina por vrios anos e no passou; desistiu e fazia no momento Bioqumica. Embora fosse mais velho que Marcos dois anos, Trcio 
se formaria no ano vindouro.
"Eu, no!" - Marcos falou, enchendo o peito de ar, a demonstrar orgulho. "Passei, na primeira vez em que prestei o vestibular."
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MUITOS SO os CHAMADOS
Colocou o diploma em cima da escrivaninha.
"Fica aqui por hoje" - pensou. "Mame ir lev-lo para colocar moldura e seu destino ser um gabinete de luxo."
Marcos gostava de falar consigo mesmo ao estar a ss. Monologava e, com prazer de escutar sua prpria voz, disse satisfeito:
"Mame e papai ficaram emocionados."
Reconhecia que seus pais tinham dado duro para form-lo. Seu pai, sr. Dlson, era dono de uma pequena padaria, a dois quarteires do apartamento em que moravam. 
Levantava todos os dias s trs horas da madrugada, trabalhava s vezes at a noite, menos aos domingos, que para ele eram sagrados, quando ia sempre  Igreja, pois 
era presbiteriano. Marcos via sempre o pai cansado, mas nunca a se queixar.
A me, professora primria, lecionava na parte da tarde e, pela manh, cuidava dos afazeres do lar, sempre ajudando a todos e facilitando as tarefas dos filhos. 
Catlica, no ia muito  Igreja a no ser na Semana Santa e em alguns domingos.
Os filhos s vezes iam  Igreja com o pai, ou com a me, porm no discutiam religio em casa, isto era-lhes proibido.
S Gabriela, sua outra irm, seguia a religio do pai: casara com Flvio, um presbiteriano convicto, e tinha dois filhos.
Solange era a caula da famlia, "temporona", como costumavam cham-la. Jovem inteligente, bonita, parecida com Marcos e muito estudiosa.
"Tenho uma bonita famlia" - suspirou, feliz.
Escreveu o endereo da tia de Mara no seu caderninho de anotaes.
"Logo cedo, estarei l. Preciso v-la.  to linda!"
Os olhos encantadores da noiva do amigo lhe vieram  mente. Trocou de roupa, deitou-se, estava deveras cansado, e adormeceu pensando nela.
Eram oito horas quando acordou. Trcio dormia tranqilo. Recordou a noiva do amigo e se levantou. Iria ver Mara; banhou-se, tomou o desjejum cantarolando e saiu.
Pegou dois nibus para chegar ao endereo que recebera. Localizou a casa e, sem hesitar, tocou a campainha. Uma senhora
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-VERA LCIA MARINZECK DE CARVALHO / ANTNIO CARLOS -
veio atend-lo. Quando Marcos perguntou por Mara, foi observado de cima a baixo.
- vou cham-la - respondeu a mulher, secamente. "Ufa!" - suspirou. "Ainda bem que acertei o endereo. E
agora, que vou dizer a ela?"
Mara veio  porta, estava com roupa clara e esportiva. Marcos achou-a mais bonita ainda.
- Oi, voc veio! Entra.
A conversa desenrolou espontnea, parecia que se conheciam h tempos.
Marcos acabou ficando para almoar e, s dezesseis horas, se retirou, porque Romeu iria busc-la logo mais, para passear. Marcaram encontro para o outro dia, passariam 
o domingo juntos.
Marcos voltou para casa pensando nos acontecimentos: "Por que tanto ele como Mara estavam escondendo estes encontros de Romeu?" Porque sabiam que no eram encontros 
de amigos, estavam fascinados um pelo outro. Sentiu cime de Romeu, que logo estaria com ela e era seu noivo. Teve raiva do amigo de tanto tempo, com quem tantos 
favores havia trocado e feito tantos trabalhos e pesquisas.
"Mas mulher   parte" - concluiu. "Gostei dela e tenho a certeza de que ela se interessou por mim. Acharemos uma soluo."
No saiu naquela noite de sbado, ficou em casa pensando em Mara. Foi dormir cedo, esquecendo-se do encontro com Rosely, que o esperaria como tantas vezes.
Na manh seguinte, Marcos levantou-se cedo e tomou o desjejum com os pais. O sr. Dlson convidou-o:
- No quer ir  igreja comigo? Venha agradecer ao Senhor, pela formatura.
- No d, papai, para o senhor agradecer a Deus por mim? Tenho um encontro marcado com os colegas que voltaro s suas cidades. Mame, no virei almoar.
- Precisa de dinheiro?
Marcos afirmou com a cabea e a me lhe deu, no era muito, mas daria para levar Mara a um pequeno restaurante.
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MUITOS SO os CHAMADOS
- Ningum vai comigo orar? S Gabriela e meus netos. queixou-se o sr. Dlson.
- Hoje vou  missa - falou d. Adelaide -, algum vai comigo?
Ningum respondeu. Marcos saiu logo e num instante chegou ao ponto de nibus. Os amigos iriam reunir-se num restaurante perto da Universidade, para se despedir. 
Romeu tambm havia confirmado presena, mas Marcos iria encontrar-se com Mara que, para ele, era muito mais importante.
Mara atendeu  porta, seu corao disparou. Achava-a linda, inteligente, sedutora; tinha tudo o que lhe agradava.
Passearam, andaram pelas ruas, sentaram num banco de uma pracinha, almoaram num restaurante simples.  tardinha, levou-a para a casa de sua tia.
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Recm-Formado
e Mara
encontraram-se todos os dias daquela semana. Cada encontro
era esperado com ansiedade por ambos. Ele contava os
minutos que o separavam daquela moa envolvente e sedutora.
No sbado, Mara despediu-se, pois voltaria  sua cidade na
manh seguinte.
Horas depois, Marcos se amargurava de saudade, de vez
que o sorriso encantador de Mara no lhe saa da mente. Ficou
carrancudo, srio e pensativo.
Rosely veio v-lo na tarde de domingo.
- Marcos, voc sumiu a semana toda! No foi me ver! O moo sentiu uma ponta de remorso e inventou uma
mentira.
- Estou preocupado com meu futuro. Quero especializar-me em Pediatria. Gostaria de fazer a especializao nos Estados Unidos ou na Frana. No tenho dinheiro! Devo 
ir amanh a vrios hospitais tentar arrumar emprego. Certo mesmo  meu trabalho no Hospital do governo, onde fiz o teste e passei. Espero resposta de um luxuoso 
hospital, mas o salrio no ser muito. Para ganhar bem  necessrio ser conhecido, ter um belo e bem localizado consultrio. Mas, para isto, necessito de dinheiro.
 medida que foi falando, Marcos se empolgou. H tempos, decidira pela Pediatria, porque gostava de crianas, mas estava encontrando muitas dificuldades.
- Calma, Marcos - Rosely procurou anim-lo -, sabia que teria essas dificuldades. A fama ser fruto de sua dedicao e capacidade. Podemos adiar nosso casamento. 
Depois, posso continuar trabalhando e ajudar voc.
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MUITOS SO  os CHAMADOS
- Trabalhar depois de casada, nunca! Que diriam meus amigos, vendo minha mulher trabalhar como simples balconista? Se ao menos voc tivesse uma profisso, um diploma!
- Marcos, sou gerente da loja, meu trabalho  honesto e... - Rosely respondeu sentida.
- Eu sei, eu sei, desculpe-me. Estou nervoso. Levo voc para casa.
- To cedo! Poderamos ir ao cinema, andar um pouco.
- Outro dia, Rosely.
Levou-a para casa e voltou logo. Rosely no representava mais nada para ele. Comparou as duas: a antiga namorada lhe pareceu to sem graa, enquanto Mara era demasiadamente 
interessante. Teve a certeza que estava apaixonado pela noiva do amigo. Trancou-se no quarto e escreveu uma longa e carinhosa carta  Mara, confessando seu amor.
Acertou seus empregos. Trabalharia, pela manh, num Hospital afamado e particular, na Pediatria, e daria plantes noturnos trs vezes por semana. O ordenado no 
era muito, mas compensava porque seria uma forma de ficar conhecido entre pessoas de posses e, tambm, para conquistar futuros clientes para seu sonhado consultrio, 
que abriria logo que juntasse dinheiro. Na parte da tarde, trabalharia na Pediatria de um Hospital do governo, perto de onde morava. Sabia que trabalharia muito, 
mas valeria a pena e, quando tivesse seu consultrio, largaria o emprego pblico.
Comeou a trabalhar naquela semana e esperou ansioso pela resposta da carta enviada para Mara.
Aproveitou, por estar muito atarefado, para afastar-se de Rosely. Parecia-lhe to sem graa que, ao estar com ela, ou se queixava do trabalho ou ficava em silncio, 
a pensar em seu novo amor.
Dias depois, recebeu a resposta de Mara, a confessar que o amava tambm. Sentiu-se feliz e lhe escreveu, em resposta, longa e apaixonada carta. Assim, por dois meses, 
eles se corresponderam com palavras ardentes e apaixonadas.
- Marcos, necessito falar com voc - disse Trcio, entrando no quarto. Vendo o irmo j deitado, indagou:
- Incomodo-o?
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- Se no for assunto demorado, fala. Estou cansado.
- Cansado at de Rosely?
- Por que me pergunta isto?
- At um bobo perceberia que no liga mais para ela. No mais se encontra com ela, anda distrado e ansioso por umas cartas... Que est acontecendo, meu irmo?
- Trcio, no se intrometa em minha vida.
- No  com sua vida que me preocupo, mas sim com a de Rosely. Ela  uma moa simples, sincera e trabalhadora, est a esper-lo todos esses anos.
- No a obriguei, esperou porque quis.
- Esperou porque a namorava. Voc  um ingrato! Trcio abriu a porta do armrio. - Suas roupas, as melhores, quem as deu? Foi ela, com seu trabalho. Quem sempre 
pagou suas despesas, quando saam? Ser, Marcos, que sua doce namorada de infncia merece ser enganada? Ser que Rosely no merece uma explicao? Ou, primeiro, 
vai se casar com a outra  e avis-la depois?
- No  bem assim, Trcio. - Marcos contou ao irmo o que se passava e finalizou: - No planejei nada, aconteceu. Mara  linda e apaixonei-me por ela. Gosto de Rosely, 
porm no a amo. No corao no se manda.
-  certo que no corao no se manda. O que no  certo  voc enganar Rosely.
- Que fao?
- Use de honestidade, termine com Rosely, embora sinta que esteja jogando uma jia rara fora. Ela seria uma companheira, uma esposa amiga. Est sofrendo com sua 
indiferena.
- Sofre?!
- Est abatida, voc no notou?
- vou acertar tudo isso.
Marcos se levantou e escreveu uma carta a Mara, pedindo que viesse a So Paulo, para conversarem e acertarem a situao. No dava mais para esconder o amor que sentiam.
Mara veio dias depois. Ao ficarem a ss, na sala da casa de sua tia, abraaram-se, trocaram beijos apaixonados e muitas juras de amor.
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MUITOS SO os CHAMADOS
Combinaram desfazer naquela semana o namoro e o noivado, depois dariam um tempo e anunciariam o namoro deles.
Mara ficou dois dias em So Paulo, e Marcos passou todas as horas livres ao lado dela. Ela concordava com a ambio do recm-formado e ele se encantava com a descoberta 
de sua "alma gmea". Tinham as mesmas idias, sonhos e gostos. Poderiam conversar horas sobre assuntos interessantes.
Mara partiu. No dia seguinte, Marcos foi esperar Rosely na sada do trabalho. A gerente da loja se alegrou ao ver o namorado  sua espera, mas ele sentiu at mal-estar 
por ver a moa feliz.
Marcos convidou-a para ir at uma sorveteria, onde conversariam sossegados. O mdico tomou metade de seu sorvete em silncio. Rosely, no princpio, tentou conversar 
com ele, porm, vendo-o silencioso, calou-se e esperou. Marcos tentava adquirir coragem, pois seriam desagradveis as explicaes que teria de dar  namorada de 
tanto tempo. Enfim, falou:
- Rosely, estou apaixonado por outra. No  justo continuar este ridculo namoro, espero que voc entenda. Sinto muito.
Rosely no respondeu de imediato, desconfiava que o namorado pudesse estar tendo alguma aventura. No acreditava que fosse algo srio, nem que ele terminasse o namoro 
daquela forma grosseira. Esforou-se por no chorar, suspirou, e disse olhando para ele:
- Poderia ser mais delicado, sr. Doutor. Quem  ridculo  o senhor, e no o nosso namoro. Deveria ser mais educado com esta idiota que lhe dedicou tanto tempo e 
juventude. Mas fique tranqilo, no estou a cobrar nada, voc no teria como pagar. H quanto tempo est apaixonado por outra? H quanto tempo me engana? Voc  
um cnico! Seja infeliz com ela! Desejo a voc tudo o que fez comigo.
Levantou-se. O rapaz teve a inteno de acompanh-la, entretanto ela o parou e disse:
- Poupo-lhe este ato ridculo: um mdico no deve estar na companhia de uma honrada mulher... mas simples balconista!
Rosely saiu apressada. Marcos voltou a sentar-se, enxugando o suor do rosto.
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VERA LCIA MARINZECK DE CARVALHO / ANTNIO CARLOS
"Ufa!" - pensou. "Foi difcil, mas sinto-me aliviado. Estou livre para Mara. Ser que ela j terminou o noivado com Romeu?"
Tranqilamente foi para casa e chegou quando seus familiares estavam jantando. Aproveitou-se por estarem todos juntos e disse:
- Comunico a vocs que Rosely e eu terminamos o namoro. Foi definitivo.
Todos se espantaram, pois Rosely era querida por todos e o casamento deles era dado como certo. Marcos no esperou que o susto passasse, continuou:
- Peo-lhes que no interfiram, porque no adiantar Estou apaixonado por outra e espero que a aceitem, de vez que vou me casar com ela, vocs querendo ou no.
Todos comearam a falar ao mesmo tempo. Marcos saiu, era sua noite de planto.
Depois dessa comunicao, Marcos passou a ficar cada vez menos em casa. Se algum tocava no assunto do namoro desfeito ou no nome de Rosely, saa de perto, no permitindo 
intromisses ou conselhos. No viu mais a ex-namorada e nem quis saber como estava.
Mara tambm terminou o noivado sem muitos problemas. Romeu a amava, mas estava prevendo o rompimento, pois sentia a indiferena da moa.
Mara, aps duas semanas, viajou a So Paulo, e eles ficaram noivos. Conforme planejaram, esconderam o fato, dando um tempo para anunciar o compromisso. Um dia aps 
Mara ter regressado  sua cidade, Marcos, ao dirigir-se ao hospital, defrontou-se com Romeu, que o esperava.
- No me conhece mais, Marcos? Ou, depois de tomar minha noiva, ignora-me?
- Oi! - respondeu Marcos, recompondo-se do susto.
- Como vai?
- Bem. E voc, miservel?
- Calma, Romeu. Ns no planejamos tra-lo, aconteceu...
- Era meu amigo, e ela, minha noiva!
- Sua ex-noiva.
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MUITOS SO os CHAMADOS
- Que seja! Vocs se merecem. Vim s para olhar sua cara de sem-vergonha, traidor!
- No deve me ofender. Sou seu amigo.
- Amigo? Voc  tudo, menos amigo. Voc ainda vai precisar de mim!
- Voc logo esquecer, voc...
- Claro, no se preocupe. Mara  frvola, traidora, no me interesso mais por ela. Quem fica com dois, pensa em trs. Por ela ia deixar de especializar-me por dois 
anos nos Estados Unidos. Agora vou, parto amanh. Espero no v-los mais. Desejo a voc, meu falso amigo, muita infelicidade e poucos anos de vida. At nunca!
Romeu virou-se, andou rpido e tomou um txi. Marcos ficou olhando-o.
"Que imbecil!" - pensou. "Est despeitado!"
Marcos e Mara passaram a encontrar-se mais, de vez que ela vinha sempre a So Paulo, e ele, tambm, passou a ir  casa dela. No incio, a famlia dela deixou claro 
que Romeu era o preferido; aos poucos, porm, foram aceitando-o.
Marcos s pensava em Mara e no trabalho. Ficou indiferente com seus familiares, e no tinha tempo nem para com eles conversar. Os dois planejaram se casar logo, 
deixando o consultrio para depois.
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A Doena
   Quatro meses se passaram. No final de novembro, durante um planto, Marcos se sentiu mal e desmaiou. Ficou minutos sem sentidos. Outro mdico, seu colega, o examinava, 
quando voltou a si.
- Dr. Marcos, vejo necessidade de voc fazer vrios exames.
- Isto  s estafa, dr. Guilherme. Tenho trabalhado muito.
- No penso assim. Faa os exames, para nossa tranqilidade.
Marcos deu uma olhada nos exames pedidos.
"Brincadeira!" - pensou. "Dr. Guilherme acha que estou mal. Eletros, exames de sangue! Bobagem! O desmaio  porque estou trabalhando demais, no voltar a acontecer."
Passados dois dias, como no sentisse mais nada, rasgou os pedidos de exame. No outro dia, porm, novo desmaio; desta vez em seu apartamento, quando se preparava 
para o jantar. Os familiares tudo fizeram para reanim-lo. No conseguindo, levaram-no para o hospital do bairro onde trabalhava. O dr. Guilherme o socorreu. Marcos 
voltou a si aps duas horas, com forte dor de cabea.
- No fez os exames que lhe pedi, no , dr. Marcos?
- No, pensei que no iam ser necessrios, eu...
- Veja   os   medicamentos   que   administrei   para reanim-lo. Isto no  estafa! Deve procurar sem perda de tempo um neurologista.
- Tenho meu professor, ou melhor, meu ex-professor da Universidade.
- timo, marque uma consulta.
Depois de tomar um analgsico, Marcos voltou para casa com os pais, que no conseguiram esconder suas preocupaes.
-- 24  

MUITOS SO os CHAMADOS
Ele se esforou para tranqiliz-los, dizendo ser s cansao. Porm, ele tambm estava preocupado.
Logo pela manh, telefonou para a residncia de seu ex-professor, contando-lhe o ocorrido e pedindo que o examinasse.
Dr. Marcondes, assim se chamava seu ex-mestre, mandou que fosse imediatamente ao seu consultrio, e que o atenderia antes da primeira consulta marcada.
O dr. Marcondes era calmo, tranqilo e de grandes conhecimentos. Examinou Marcos, entre conversas e risos, falando sobre os tempos em que ele estudava.  medida 
que o examinava, foi se inquietando e se.esforou para no parecer preocupado.
- Marcos, necessito de exames para dar o diagnstico. Passemos para a outra sala, onde faremos radiografias e eletroencefalogramas.
Marcos, um tanto apreensivo, acompanhou o professor. Ao terminar o eletro, dr. Marcondes examinou-o concentrado, calado. Marcos foi at ele e tentou olhar o resultado.
- Alteraes?! - perguntou.
- Deixa que eu examino. S poderei dar o diagnstico com todos os exames prontos. Deve voltar daqui a dois dias. V tranqilo e no se preocupe.
Marcos voltou para casa, no conseguiu se acalmar: o que vira no eletro no era nada bom, deveria estar realmente doente e talvez fosse algo grave.
No outro dia, como Marcos demorava para levantar-se, sua me foi acord-lo e o encontrou desmaiado. Despertou logo, porm sem saber o tempo que estivera sem sentidos. 
No conseguiu levantar-se, de tanta dor de cabea; a vomitou, e eram vmitos em jatos, sem nuseas.
Dois dias demoraram a passar. Marcos contava as horas, quando deveria estar novamente com o dr. Marcondes.
Muito nervoso, l estava antes da hora marcada, e foi recebido com carinhoso abrao.
- Marcos, que  isto? Nervoso? No deve ficar assim. Que poder ter de grave com um moo to forte? Veja os exames.
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VERA LCIA MARINZEK DE CARVALHO / ANTNIO CARLOS
Com naturalidade, o dr. Marcondes mostrou-lhe os exames.
- Um tumor enceflico?! - Marcos exclamou, empalidecendo. - Por isso minha cefalia matinal, meus vmitos em jato, sem nuseas.
- Est localizado numa rea delicada do crebro, porm aconselho uma cirurgia, e o mais breve possvel. Poderei operlo, se quiser. Ficar bom, no deve se preocupar.
- Pode ser um tumor maligno! Um cncer!
- Pode no ser! Aposto com voc que no . Confio que no seja grave. Fica com os exames, estuda-os e esteja  vontade para mostrar a outros profissionais.
- No existe outro mdico melhor na sua especialidade, professor. Admiro-o.
- Obrigado. Poder ser operado no hospital da Universidade, assim no gastar nada e estar entre amigos.
- Isto  bom! Confesso que no tenho dinheiro para tal problema, nem minha famlia.
- Pense, Marcos. Quando chegar a um resultado, telefone-me, ou se encontre comigo, na Universidade, sempre s dezesseis horas. Marcaremos tudo.
Marcos foi para o hospital trabalhar, e procurou fazer tudo rpido, para ter tempo de pensar e rever com ateno os exames. S teria chance se operasse. Pediu licena 
do trabalho  tarde, e foi encontrar-se com o dr. Marcondes, na Universidade. Resolveram. Marcos submeter-se-ia  cirurgia, e a marcaram para dali a dois dias.
Marcos teve licena nos dois empregos e foi para casa. Contou aos familiares, mas procurou esconder sua apreenso, pedindo-lhes para no se preocuparem e que a cirurgia 
seria simples, contudo necessria.
No dia seguinte de madrugada, com a inteno de no regressar tarde, foi visitar Mara, a fim de coloc-la a par da situao. Ficou ela muito preocupada. Marcos tentou 
acalm-la, conversando sobre assuntos que apreciavam. Ao sentar-se para almoar, sentiu tudo rodando e caiu: a cabea doa-lhe terrivelmente.
Acomodaram-no no sof, e ele pediu que lhe aplicassem um analgsico. O farmacutico foi chamado e lhe deu uma
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MUITOS SO os CHAMADOS
injeo, Marcos desmaiou. Chamado o mdico da famlia, Mara lhe contou o acontecido e o clnico procurou reanim-lo. Ele voltou a si, uma hora e quarenta minutos 
depois, e vomitou.
Temendo que voltasse sozinho, o pai de Mara e ela o trouxeram de carro a So Paulo. Seu genitor regressou no mesmo dia, todavia Mara ficou, porque queria estar perto 
do noivo na cirurgia.
Marcos ficou acamado at a hora de ir para o hospital. Estava esperanoso e animou a todos. Confiava no dr. Marcondes e sabia o tanto que era competente.
No outro dia cedo, acompanhado de Mara e de seus familiares, Marcos dirigiu-se ao hospital. Aps os preparativos, levaram-no para a sala de cirurgia. Um grupo de 
estudantes assistiria  cirurgia. Com votos de felicidade e sorte, da turma, Marcos adormeceu com a anestesia.
Horas se passaram...
Sentia vultos perto, teve vontade de abrir os olhos, tentou falar, mas s saiu um murmrio, quando sentiu apertarem levemente sua mo e escutou a voz carinhosa de 
sua me.
- Tudo bem, filho! J est operado e no quarto. Tudo correu bem. Vai ficar logo bom. Nada de grave. 
Sentindo-se mais tranqilo, adormeceu. Acordou com o dr. Marcondes examinando-o.
- Marcos, voc est bem! A cirurgia foi um sucesso,,
- Diga-me, professor,  cncer? ""'
- No. Os exames acusaram um tumor benigno.   Ufa! Que bom!
Em todos os horrios de visita, Mara esteve com Marcos, animando-o e distraindo-o. Dizia-lhe, brincando:
- Voc est horrvel, careca. Se no nascerem cabelos, no me caso com voc.
A famlia de Marcos, ao ver a moa to paciente e amorosa, passou a v-la com mais simpatia.
Marcos teve alta e foi para casa. L, todos procuravam ajud-lo, principalmente sua me, que se desdobrava em cuidados e carinhos.
Aps duas semanas, Mara voltou para casa, mas vinha v-lo todo final de semana. Rosely no o visitara. Marcos
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-VERA LCIA MARINZECK DE CARVALHO / ANTNIO CARLOS -
preferiu assim, embora no entendesse o porqu de tanto ressentimento.
Quando j se sentia bem e forte, dr. Marcondes permitiu que voltasse ao trabalho, mas sem dar plantes noturnos.
Marcos e Mara oficializaram o noivado, numa pequena recepo na casa dela, ocasio que serviu para as duas famlias se conhecerem. Casariam assim que Marcos se organizasse 
novamente.
Seis meses se passaram.
Marcos conseguira juntar pequena quantia de dinheiro, pois pensava comprar um carro para lhe facilitar a vida. Tambm, poderia ver a noiva com mais comodidade, e 
ela estava acostumada com esse luxo.
Pouco tempo depois, comeou ele a sentir novamente dores de cabea, entretanto no contou a ningum. Aps uma crise mais forte, preocupou-se e marcou uma consulta 
com o dr. Marcondes.
No caminho para a consulta, Marcos desmaiou no ponto de nibus e foi levado para um Pronto-Socorro. Acordou com uma enfermeira medindo sua presso e outra lhe fazendo 
curativos, de vez que, ao cair, machucara o queixo e o brao esquerdo.
- Pode deixar, obrigado, sou mdico.
Dizendo isso s enfermeiras, quis levantar, contudo no conseguiu, porque sua cabea doa terrivelmente. S depois que o analgsico fez efeito, foi que pde tomar 
um txi e chegar ao consultrio, para a consulta marcada.
Aps cumprimentar dr. Marcondes, Marcos narrou-lhe o acontecido.
- Doutor, o senhor acha que esta dor pode ser outro distrbio? Ou novamente o tumor... - perguntou Marcos um tanto nervoso.
- Marcos, voc  mdico, e foi bom aluno. Creio que j o enganamos bastante. Veja, aqui esto seus exames. Tem cncer. O tumor est localizado numa rea perigosa. 
Pouco podemos fazer. Mandei cpias dos exames ao melhor e mais aparelhado hospital da Amrica do Norte, e eles so da mesma opinio. No  aconselhvel operar mais.. 
Tiramos um bom
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MUITOS SO os CHAMADOS
pedao dele, mas no ele inteiro. Sinto muito por no ter conseguido cur-lo. Consideramos melhor voc ficar sem drogas, porque elas, no seu caso, s iriam faz-lo 
sofrer mais.
Marcos abaixou a cabea, sentiu estar flutuando, pois no queria acreditar no diagnstico. Sabia, porm, ser verdade. Iludira-se. Acreditara tanto na cura, que anulou 
seu raciocnio de mdico. Ecoavam fortes em sua mente as palavras do cirurgio. Os exames ficaram soltos no seu colo, de vez que no teve ele coragem de olh-los. 
Aps silenciosa pausa, dr. Marcondes voltou a falar:
- Marcos, sinto muito. Agora no tenho como mentir, porque voc  um profissional.
- Algum mais sabe?
- S seus pais. < ;  -Esconderam bem.                                 -    
-   i   - Foi melhor voc no saber.
- Agradeo-lhe por tudo. No sei o que fazer agora. Que me aconselha?
Se quiser fazer algum tratamento...
- Seria intil. Quanto tempo tenho?
- Quem sabe dizer? Se acreditasse em Deus, diria que s Ele sabe. No quero fazer uma previso. O tempo que esteve sem sentir nada foi alm de nossa expectativa. 
Leve os exames, estude-os, estarei aqui para ajud-lo no que quiser. Marcos, sabe como   medicar-se, mas aqui est a receita. Deve deixar seus empregos.
Marcos pegou os exames e saiu sem se despedir, estava revoltado, teve vontade de xingar todas as pessoas que via. Conteve-se para no insultar o dr. Marcondes por 
no ter tentado um tratamento logo aps a cirurgia, por ter lhe escondido o resultado. Foi para casa desanimado, tudo parecia cinzento o que antes via to bonito.
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 Pegou um txi para voltar  sua casa. O apartamento estava silencioso, todos haviam sado. Marcos se trancou e tratou de estudar, em seu quarto, todos os exames 
que o dr. Marcondes lhe entregara. Verificou que estava vivo por milagre. No tinha muito tempo de vida e nada se podia fazer. Qualquer tratamento s o maltrataria 
alm de custar muito dinheiro.
Antes do horrio em que a me costumava chegar, abriu o quarto. No querendo no momento conversar com ningum, tomou um sonfero, acomodou-se no leito e adormeceu.
Como a depresso influi na doena, ou melhor, no doente, no outro dia os pais se assustaram ao v-lo: estava abatido, de olheiras, curvado, havia emagrecido.
Marcos se levantou, aproveitou que estavam todos juntos para o desjejum e narrou o que lhe ocorria, com voz pausada e de cabea baixa. Pediu que tivessem pacincia 
com ele, mas no piedade. Seus irmos se assustaram, esforando-se para no chorar, mas os pais, que sabiam de tudo e estavam angustiados na espera da recada, no 
agentaram e choraram muito.
- Podemos implorar sua cura a Deus, meu filho, faremos promessas - disse a me.
- No se devem chantagear favores. Adelaide, devemos pedir graas, mas no troc-las com promessas - falou o sr. Dlson.
- Deus! Deus no  justo, mame, no ? Tantas pessoas inteis, vadias e logo eu  que fico doente?! Eu, que comeo a exercer uma profisso para a cura de tantas 
pessoas!
- No diga isso! - falou o pai. - Tenho e devemos ter esperanas. Nossa vida pertence a Deus e acredito na Sua justia, embora no a entenda.
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MUITOS SO os CHAMADOS
- No me lembro de Deus. Nesses anos todos, no pensei nele. Ser que ir se preocupar comigo?
Todos se calaram. Com a inteno de contar  Mara, telefonou-lhe, porm no teve coragem. Esperou sua vinda, no final de semana.
Afastou-se dos empregos e ficou em casa, sem coragem nem vontade de sair. Como combinado, na sexta-feira, Mara veio, e se assustou ao v-lo. Marcos contou-lhe tudo, 
sem esconder nada.
- Desfaremos o noivado, Mara. Adoro-a, mas desde agora voc j  livre.
- No e no! Estarei sempre com voc!
Ficou, como sempre, por dois dias e passou-os com Marcos, porm, no agia mais com aquela espontaneidade. Mara o tratava como moribundo, pois no sabia ao certo 
o que fazer. Sentia-se aliviada na hora de ir embora. Comeou ento a afastar-se do noivo!
Marcos pensou em trabalhar para se distrair, mas podia desmaiar a qualquer momento e, tambm, no sentia nimo para nada, de vez que se alimentava pouco e as dores 
j eram constantes. Passaram-se duas semanas e estava fraco, parecia outro. Dr. Marcondes o internara, para fortific-lo com sangue e soro.
No hospital, colocaram-no numa cadeira de rodas, para ser conduzido ao quarto. Observava os corredores distrado, por onde passara to cheio de sonhos e ansioso 
de poder. Esforou-se para no chorar. A enfermeira, ao conduzi-lo, parou para conversar com uma outra que abrira a porta. Marcos olhou para dentro da ala infantil, 
ali estavam os infantes doentes. Sem dvida, iria tratar deles, se no estivesse doente. Havia muitas crianas, algumas dormindo parecendo tristes, outras chorando 
de dor ou pela falta dos entes queridos.
"Engraado" - pensou -, "vejo-as de modo diferente, no como mdico; sinto compaixo por elas, vejo-as como pessoas que, do mesmo modo que eu, sofrem."
- Morreu!
A voz de espanto da moa que o conduzia fez com que Marcos prestasse ateno nelas. .-
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VERA LCIA MARINZECK DE CARVALHO / ANTNIO CARLOS -
- Sim, o menino morreu. Dr. Rui lutou para salv-lo, mas no conseguiu.
- Como  a vida! Alguns pais so to amorosos, deixam em pranto os filhos aqui internados, outros... Quanto desamor, surrar uma criana assim.
- Alm do traumatismo craniano, teve outras fraturas!
- Ser que o pai vai ser preso?
- Ora... no tenho conhecimento de um pai ou me preso por surrar filhos, ainda mais que  um figuro.
- Estava bbado?
- Sim! Dizem que foram a uma festa e deixaram a criana sozinha, e quando voltaram de madrugada o garoto ps-se a chorar de medo; para que se calasse, o pai o surrou.
- Tomara que nunca mais eles consigam dormir, pais irresponsveis. Que laudo deram?
- Que o menino caiu.
- Se fossem pobres...
- Ora, Mercedes, no  a primeira vez que isto acontece, j tivemos muitos casos e com crianas mais pobres ainda.
- Sei, mas revolto-me. Tantos querendo ter filhos, e outros os tm e os matam, e com pancadas. E sempre acham desculpas para seus atos: porque os pequenos choram 
muito, ou por no terem dinheiro, ou ainda por brigas entre eles, cnjuges. Descontam nos filhos suas frustraes e, assim, so realmente assassinos.
- Dia chegar em que entendero o que fizeram e sofrero as conseqncias dos seus erros.
A enfermeira continuou seu caminho, entrando num quarto: Marcos foi colocado no leito e ali ficou a ss a meditar, enquanto lentamente lhe ministravam sangue e soro.
Marcos chocou-se com o que ouvira: tantos a lutar pela vida, e outros a destru-la, como aquele pai inconseqente.
"Estou ficando sensvel" - pensou.
Mara lhe fazia falta. Deu mil desculpas e no foi v-lo naquele final de semana. Entendia o procedimento da noiva. Eram eles parecidos. Como ele no seria capaz 
de se dedicar
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MUITOS SO os CHAMADOS
com amor a um doente, ela agia assim tambm: ambos amavam a vida, a beleza...
Acabou chorando.
"Oh!" - pensou. "Se Deus me desse outra oportunidade, mais tempo! Iria dedicar-me  profisso com amor. Seria, para as crianas pobres, o alvio, o consolo, a cura. 
No pensaria mais em enriquecer. Trataria dos doentes com mais carinho."
Esses pensamentos passaram a acompanh-lo. Mudaria sem dvida, se no morresse.
Voltou para casa sentindo-se fortalecido. No lar, tinha tempo de sobra para pensar, ler, ver televiso. s vezes, tinha vontade de pegar seus livros e estud-los.
"Para qu? Que me adiantaro mais estudos?"
Mas acabou pegando-os. Lia-os com ateno e carinho, recordando as aulas e as brincadeiras da turma toda.
Rosely veio visit-lo: estava tranqila, bem aparentada e risonha. Quando chegou, sentiu-se um pouco embaraada, mas depois o assunto veio naturalmente sem se mencionar 
a doena.
- Meu bem Trcio disse a ela -, vamos?
Marcos percebeu que o irmo e ela se entendiam... namoravam. H tempos, no prestava ateno nos problemas familiares, vendo somente os seus. Nem se importou com 
Rosely, todavia ela no lhe guardava rancor. Estava alegre por v-lo.
- Meu irmo! - exclamou Trcio. - H tempo, gosto de Rosely. Quando vocs romperam, conversamos muito e vimos o quanto temos em comum. Namoramos, espero melhorar 
meu ordenado para nos casarmos.
- Voc me abriu os olhos, Marcos. A convivncia nos enganou, pois pensei que o amava, mas ao conhecer melhor Trcio foi que descobri o amor. Ele  o homem de minha 
vida!
Marcos sorriu e se esforou para aparentar alegria, ao despedir-se de sua ex-namorada. Ao ficar a ss, meditou:
"Que bem fiz na minha vida? Muito pouco! Nem amigos tenho. Pensei s em mim, a est a colheita. Mesmo Rosely, que julguei me amar, se enganara. Mara est to distante 
e prefiro assim, de vez que estou virando um farrapo humano e sei que vou piorar; ela amou o jovem cheio de vida e de
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VERA LCIA MARINZECK DE CARVALHO / ANTNIO CARLOS
entusiasmo que fui. Sinto saudade, mas no a quero por perto; v-la seria um tormento."
Escasseavam as visitas da noiva e, quando estavam juntos, pouco conversavam. Ela no sabia o que dizer e ele temia que ela tivesse somente pena dele.
Marcos lembrou de Romeu. Certamente seu ex-amigo sofrer com sua traio. Recordou-se do dio dele no ltimo encontro.
"Seria bom que me perdoasse e que estivesse feliz!"
Num impulso, escreveu aos pais dele, solicitando seu endereo nos Estados Unidos.
"Quando o obtiver, escreverei pedindo desculpas. Afinal, no quero deixar mgoas por aqui" - falou baixinho.
A porta do quarto se abriu num empurro.
- Achei uma soluo!
D. Carmem entrou, seguida de sua me e Solange. Sua av estava entusiasmada, corada pela excitao, e falou gesticulando. Todos prestavam ateno nela, e a boa velhinha 
no se fez esperar, para a explicao:
- Encontrei, hoje, na cidade, Flora, uma amiga que mora no Brs. H tempos que no nos vamos, conversamos muito. Contei a ela, ento, que voc est doente. Flora 
ento me deu uma grande esperana de soluo. Francisco, seu esposo, estava com cncer no esfago e desenganado pelos mdicos, quando ficaram sabendo de um centro 
esprita, no interior de So Paulo, onde ocorriam curas milagrosas. Foram at l e gostaram muito. Francisco foi operado l, espiritualmente, e se curou. Vive bem 
at hoje, j faz trs anos!
- Meu filho, num centro esprita!! Imagine!
- Calma, mame - falou Marcos, interessado. - Continue, vov.
- Se quiser saber de tudo com detalhes, meu neto, amanh poderei ir  casa de Flora e obter informaes, inclusive endereo e tudo o mais que nos interessar. Tenho 
certeza de que a est a resposta s nossas preces. Acredito que Deus sempre permite um filho d'Ele ajudar a outro, mais necessitado. Agora, voc  o necessitado. 
Busque e achar. Deus permite que Seus
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MUITOS SO os CHAMADOS
filhos se ajudem,  um irmo auxiliando outro. O Pai-Amoroso no deixar de ajudar-nos, pois tenho orado tanto! O doente comoveu-se e abraou a av.
- Obrigado, vov, por sua preocupao e carinho. Quero, sim. V amanh e, se possvel, traga-me os exames do sr. Francisco.
- Vai mesmo, filho, a um centro esprita? Voc no acredita nisso!
- Nem desacredito. A Medicina no pode me curar. Por que no tentar outros meios? Comentvamos muito na Universidade casos paranormais em que se realizavam curas. 
Eram curas   comprovadas, e se aconteceram por auto-sugesto ou pela fora mental de certas pessoas no se sabe, o fato  que podem acontecer. Fui educado, mame, 
entre duas religies e amo as duas, isto me fez entender que Deus est em todas. E por que no no Espiritismo?
- Eles mexem com os mortos! - sua me exclamou, abaixando a voz.
- Bobagem! Usam uma parte do crebro que poucos conseguem usar, s isto. E mortos no so pessoas tambm? No vejo nada demais. Mame, arrependo-me por no ter seguido 
nenhuma religio. Nada melhor que sofrer, tendo o conforto de uma religio e se ligando a Deus porque acredito no Absoluto, no Criador do Universo.
- Nunca ouvi voc falar assim! - exclamou Solange, que at aquele momento escutara em silncio.
- Nunca me vira doente...
- Tem razo - disse d. Adelaide -, devemos tentar, se no fizer bem, mal no far.
- Estamos combinados, amanh cedo irei  casa de Flora. Estou to esperanosa!
Marcos estava com muitas dores, por isso pediu para ficar sozinho, quando tomou o remdio para ameniz-las, e pensou:
"Que bom seria se eu sarasse!... Ajuda-me, meu Deus! Se ficar bom novamente, trabalharei com dedicao e amor. Sanarei dores em Teu nome."
Pela primeira vez, sentiu esperanas.
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-VERA LCIA MARINZECK DE CARVALHO / ANTNIO CARLOS Adormeceu.
O almoo no tinha sido servido, quando d. Carmem regressou. Viera contente, entrou no apartamento com tanto entusiasmo, que todos foram  sala para v-la. Trouxera 
o sr. Francisco, que h tempos a famlia no via. Aps os cumprimentos, o sr. Francisco disse, dirigindo-se a Marcos:
- Meu filho, tive cncer e realmente sarei. Fui operado por duas vezes no Hospital do Cncer, e sofri muito nestas cirurgias sem ter melhora. Estava marcado para 
morrer em breve, pois o cncer me consumiria. Sabendo das curas realizadas no Espiritismo, fomos duas vezes ao centro esprita e deu resultado. Curei-me l, sem 
dores nem sangue. Graas a Deus estou bem, gozando de excelente sade. Trouxe meus exames, analise voc mesmo, pois  mdico. Estes so os de antes de ser operado 
no centro esprita e esses os que fiz depois, comprovando a cura.
Marcos pegou os papis e examinou-os.  medida que os lia, enchia-se mais ainda de esperana.
- Ento, Marcos, que me diz?
- Tem razo, sr. Francisco, o senhor est curado e a Medicina terrestre no soube explicar o que aconteceu.
- Voc tambm ficar curado!
Essas palavras permaneceram na mente de Marcos e foram tomando fora: "Voc ser curado! Eu sarei!"
- Vov, quero ir! Por favor!
- No  to fcil assim - falou d. Carmem. - L no se cobra nada, tudo  feito com amor e caridade. H dias certos para atendimento e terei de conseguir uma consulta.
- Consulta?!
- Marcos - explicou sr. Francisco -, o mdium que opera e as pessoas que o ajudam so cidados comuns, que tm seus afazeres, trabalho e famlia. Atendem os doentes 
trs vezes por semana. Uma vez  para consulta, quando se analisa o que o doente tem; na segunda,  operado e, na terceira, recebe o receiturio e passes.
- Passes? - indagou Marcos, curioso.
- Energias curadoras - esclareceu o sr. Francisco.
- Quero ir!
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No
Centro Esprita
Dona Carmem organizou tudo sozinha e viajou para o interior. Encontrou o Santurio Espiritual Ramatis da cidade de Leme e marcou consulta para o neto, voltando mais 
entusiasmada ainda com os casos que ouvira.
No dia certo, saram cedo de So Paulo. Marcos no se sentia bem, pois tinha dores e fraqueza. Fez viagem desconfortvel no antigo automvel do cunhado, que gentilmente 
o emprestara para esse fim. No se queixou, porque estava esperanoso e sua vontade de sarar era grande.
O trabalho espiritual s iria comear  noite. Foram ento procurar alojamento num pequeno e simples hotel da cidade.
Antes da hora marcada, l estavam. Marcos gostou do lugar, de vez que a casa esprita era cercada por um bonito e singelo jardim, e o salo era grande e simples.
Marcos, curioso, observou tudo: na parte da frente, no centro, onde havia plantas e flores, e na parede, em que se via um lindo e encantador quadro com Jesus Nazareno 
de braos abertos, distribuindo graas.
Teve incio o trabalho espiritual e deixaram acesas somente as luzes da frente; o salo ficou com uma claridade suave e agradvel, convidando  meditao e orao. 
Os mdiuns que ali auxiliavam, entraram, destacando-se um senhor simptico, que Marcos veio a saber que se chamava sr. Waldemar. Falou ele aos presentes com voz 
firme e todos prestavam ateno. Marcos se emocionou e procurou entender a mensagem. O que guardou dela foi mais ou menos o seguinte:
- Irmos, muitos so os chamados e poucos fazem por serem escolhidos. Aqui esto  procura da cura de seus males. Depois de curados, so chamados por Jesus para 
uma vivncia mais espiritual, mais humana, lembrando que somos todos irmos e que Deus  Pai de todos.
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VERA LCIA MARINZECK DE CARVALHO / ANTNIO CARLOS
Porm, h muitos aqui, que, curados de seus males fsicos, esquecem este apelo, este chamamento, e voltam  vida ftil. Que temos de fazer para sermos escolhidos? 
Exemplos Jesus nos deu e esto a nos Evangelhos. Amem a todos, todos sem distino, so eles o nosso prximo. Faam, meus irmos, o bem; evitem os abusos e o mal. 
Despertem para as coisas de Deus. Muitos irmos nem querem ser chamados; outros, chamados, deslumbram-se mas esquecem logo. Vocs, aqui presentes nesta simples e 
humilde casa do Pai, esto sendo chamados. Faam por merecer serem escolhidos. Despertem para uma nova vida, mudando os hbitos maus por costumes bons, vivendo no 
amor, no bem e para o bem.
Quando o sr. Waldemar acabou, o silncio continuou a reinar. Separaram-se: os mdiuns foram para as salas ao lado, e ficaram no salo os que iam ser consultados 
e seus acompanhantes.
Marcos ficou meditando no que ouvira, at ser chamado a entrar em uma das salas.
O lugar era modesto, simples. O sr. Waldemar estava presente, e observei que a fisionomia do mdium mudou um pouco, estava tranqila irradiando amor e paz.
- Que tem, meu filho?
A voz era diferente, com sotaque estrangeiro, dando uma enorme confiana nos consultados.
- Sr. Waldemar, eu...
- Por favor, meu filho, sr. Waldemar  o aparelho, o mdium; agora,  um mdico quem lhe fala.
- Tenho cncer. Silncio.
Aps um minuto, Marcos escutou, surpreendendo-se:
- Um tumor enceflico.
O mdium colocou a mo na cabea de Marcos, no lugar exato da localizao do tumor.
Falou alto a uma senhora que estava tomando notas, o que Marcos tinha com exatido e, voltando-se a ele, disse:
- Os mdicos encarnados j o operaram e no conseguiram cur-lo. Confie, filho, pea ao Pai sua cura.
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MUITOS SO os CHAMADOS
Marcos foi encaminhado a outra sala. Entrou, sentou-se e foi rodeado por mdiuns.
Dois deles comearam a falar, em transe. Marcos, porm, prestou ateno no que um dos mdiuns, um moo, falou:
- Ora, para que cur-lo? Por que vocs se preocupam com pessoas ruins, egostas? E ainda querem tirar suas dores! Ele no presta! S pensa em si mesmo. Roubou a 
noiva do amigo! Tem que morrer! Demorei para ach-lo e agora querem que o deixe. Somos inimigos de outras eras. Esperava uma oportunidade para maltrat-lo. Foram 
dois encarnados que, conosco, desejaram isso. Ele merece! Tenho aval, ele nesta encarnao no melhorou. Pisa em que o atrapalha.
Um outro mdium, um senhor, conversou com o esprito e lhe disse da necessidade de perdoar e ir embora para o mundo espiritual, onde seria feliz, e que deveria deixar 
os encarnados em paz.
Os mdiuns voltaram ao normal e Marcos foi convidado a sair. Encaminharam-no para a frente da sala, onde estava o quadro de Jesus. Outros mdiuns impuseram-lhes 
as mos e todos oraram o Pai-Nosso. Marcos orou com f:
"Meu Jesus, hoje fui realmente chamado, cura-me e tudo farei para ser escolhido."
Novamente sentou-se em seu lugar. Aps todos serem atendidos, os mdiuns se reuniram novamente no centro, e uma senhora recitou uma orao gloriosa que muito o emocionou. 
A Prece de Critas, conforme falaram depois para Marcos.
Acenderam-se as luzes, ele recebeu um papel que marcava, em carter de urgncia, sua operao para segunda-feira prxima.
Voltaram ao hotel e Marcos dormiu bem a noite toda, fato que h tempos no ocorria.
No dia seguinte, comentaram os acontecimentos da noite anterior e concluram que no haviam entendido muito.
D. Adelaide voltou para So Paulo, permanecendo, com Marcos, seu pai e a av, para retomarem na quarta-feira pela manh.
Na tarde de sbado, ajudado pelo pai, saram do hotel, indo a uma pracinha. Perto de uma banca de revistas, Marcos
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-VERA LCIA MARINZECK DE CARVALHO / ANTNIO CARLOS -
viu um senhor e reconheceu ser da equipe de mdiuns do Centro Esprita "A Caminho da Luz".
- Boa-tarde - Marcos cumprimentou-o e apresentou-se. O mdium respondeu educadamente apresentando-se
tambm e sentaram-se num banco  sombra das rvores.
- Por favor, sr. Netinho, fale-nos um pouco sobre o trabalho espiritual de vocs. Explique-nos o que ocorreu comigo.
- Nada h que possa espantar, meu caro jovem, tudo  to simples e explicvel. Assim como se exerce a Medicina com amor, aqui como encarnado, poder, se se quiser, 
exerc-la desencarnado. Quem faz o bem aqui, poder fazer melhor do lado de l. A Medicina espiritual  bem mais evoluda e melhor equipada, por isso puderam localizar 
com preciso o tumor de que  portador. So muitos os desencarnados de boa vontade que nos ajudam. Quanto ao que viu e ouviu na outra sala, foi a doutrinao de 
entidades ignorantes que o acompanhavam. Aqui, dr. Marcos, fazemos amigos e inimigos, e estes muitas vezes nos seguem; amigos ajudando-nos, e inimigos prejudicando-nos. 
As duas entidades que ouviu, perseguiam-no, sabendo o que ocorria com voc, e procuravam agravar seus problemas. Orientadas, foram para o lugar que lhes  devido 
e, assim, sem essas companhias indesejveis, pde voc sentir-se melhor e dormir bem.
- Sr. Netinho, que aconteceu, quando impuseram as mos sobre mim? Senti-me to bem!
- Voc foi beneficiado por um Passe de Irradiao. Procuramos fortalec-lo e anular a energia negativa em forma de doena do seu organismo. Voc, meu jovem, poder 
entender melhor se estudar a literatura Esprita.
Conversaram mais um pouco, tendo Marcos anotado algumas obras espritas que poderiam esclarec-lo, indicadas gentilmente por aquele senhor, e prometeu a si mesmo 
adquiri-las e estud-las. Despediram-se, em seguida.
Marcos compreendeu que os acontecimentos na casa esprita tinham lgica e no se chocavam com seus conhecimentos.
Esperou ansioso pela noite de segunda-feira.
O incio e o trmino dos trabalhos eram parecidos nos trs dias em que a eles assistira.
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MUITOS SO os CHAMADOS
Naquela segunda-feira, novamente o mdium curador se fez ouvir. Marcos prestou bastante ateno:
- Estamos sempre pedindo graas ao Pai. E estes pedidos, sero bons somente para ns? Devemos analisar o que pedimos e somente implorar a Deus o que  bom a ns 
e aos outros. Vocs, irmos, aqui doentes, pedem a cura de seus males. E devem pedir com f, porque  pela f que obtemos o que almejamos. No tm f? Deixem, ento, 
crescer esta sementinha l no fundo de suas almas e cuidem bem dela. Para fortific-la  necessrio estudar e compreender os ensinos de Jesus, com a luz da razo 
e do entendimento. No se cr, somente por crer.  necessrio entender e sentir. A f raciocinada ajuda-nos a viver, a compreender e a pedir as graas de que necessitamos, 
para nossa felicidade e evoluo. E, para racionalizar a f, devemos buscar conhecimentos nos livros espritas, nas obras de Allan Kardec. Jesus curou muitos, quando 
esteve encarnado, e disse: "Viro outros que faro o que eu fao e muito mais. Onde estiverem dois, trs ou mais reunidos em meu nome, a estarei presente". Ao curar 
o corpo fsico, cuide-se para no adoecer o esprito com as ms tendncias e vcios. Mente s e conscincia tranqila no bem significam corpo sadio e perfeito. Muitos 
de vocs sero curados. E estas curas realizam-se pela vontade de Deus. Nada acontece a no ser por vontade dele. Fez pequena pausa e prosseguiu:
- E quem muito recebe, muito deve ser agradecido. Sejam, irmos, agradecidos e analisem o muito que receberem. Se no formos gratos, com que coragem iremos pedir 
novas graas? No estamos sempre necessitados da Bondade do Pai? A Ele, ao Pai  que tudo devemos: nossa gratido e amor!
Marcos ficou meditando no que ouvira, at ser chamado, quando, ento, foi encaminhado a uma das salas. Estava to emocionado, que tremia ligeiramente. Deitou-se 
em uma mesa e procurou relaxar, como uma senhora lhe recomendara.
Estava no local o mdium, sr. Waldemar, mediunizado, e outros mdiuns para ajudar. Marcos fechou os olhos e acompanhou mentalmente a orao do Pai-Nosso que uma 
senhora recitou em voz alta.
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VERA LCIA MARINZECK DE CARVALHO / ANTNIO CARLOS
Sentiu algo frio na sua cabea, que fora molhada com ter em algodo. Percebeu algo l do fundo de seu crebro, e teve a sensao de que estava com o crnio aberto; 
depois sentiu uma dor aguda e passageira, bem no local em que fizera a cirurgia material. Com durao de trs minutos, aproximadamente, havia acabado a operao 
espiritual!
Uma senhora lhe fez um curativo com esparadrapo e gaze, que sentiu estar molhada com ter.
De novo em seu lugar, teve a sensao de que fora anestesiado, e se sentia bem e tranqilo. Quando todos foram atendidos, encerraram-se os trabalhos, com a recomendao 
de que repousassem at o outro dia e,  noite, voltassem para receber passes.
Marcos dormiu a noite toda e esteve sonolento durante todo o dia. No sentiu dores, mas somente uma fraqueza de convalescente aps uma cirurgia.
Na noite de tera-feira, o salo estava repleto, Marcos notou que muitas pessoas da cidade e da redondeza ali vinham para receber o passe.
O sr. Waldemar novamente ps-se a ensinar. Ali recebiam remdios para o corpo e para a alma. Reinando grande silncio, falou o mdium:
- Irmos, largo  o caminho da vida mundana, das facilidades e das iluses terrenas. Estreito  o caminho do bem, e quando por ele caminhamos, devemos abandonar 
a prtica de coisas que agradam ao corpo, mas adoecem a alma. Estreito  o caminho da Vida Eterna. Muitos se recusam a ouvir o chamamento do Pai, no reconhecendo 
Jesus como o Pastor, e no querem fazer o mnimo sacrifcio e seguir pelo estreito caminho que nos leva  salvao. Aqui vieram para ter o alvio de seus males, 
e esto sendo chamados para o entendimento de uma vida objetivando a Espiritualidade. Peam tambm ao Pai coragem para se tomarem melhores, porque esse corpo para 
o qual buscam a cura  perecvel, mas o esprito  eterno. Muitos se esquecem desse fato to importante e do mais valor ao corpo, que veio da Natureza e a ela voltar. 
Aqueles que ouvem e no seguem os ensinamentos de Jesus, so os
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MUITOS SO os CHAMADOS
imprudentes que construram sua casa sobre a areia e, por basearem sua existncia nas iluses do corpo, vem a morte fsica e  grande sua runa, sua decepo e sofrimento. 
Por que dar mais valor ao material que  perecvel? Vamos mudar para o bem, curando o esprito das chagas, dos vcios e das maldades, para termos o esprito so 
e o corpo com sade. Porque, meus irmos, se no sarar o esprito, cura-se o corpo hoje, mas amanh poder adoecer novamente. Cura-se o esprito, com as receitas 
da boa moral e do bem viver, contidas nas lindas lies dos Evangelhos.
Finalizando, pediu que se formasse fila para receber os passes.
Marcos gostou muito de tomar passe. Ali de p, em frente da pintura lindssima do Nazareno, sentiu um calor, uma energia boa e pura entrando em sua cabea, fazendo-o 
sentir-se melhor e com mais nimo.
No final, recebeu um receiturio homeoptico e dois vidros de remdios elaborados com plantas, sem produtos qumicos, com a recomendao de que voltasse aps trinta 
dias.
Os operados pareciam com outra disposio, e os comentrios eYam de otimismo. Sr. Dlson gostou e d. Carmem estava entusiasmada, comentando tudo com alegria.
Regressaram na manh seguinte a So Paulo. E Marcos, alm da esperana, tinha a f que lhe dava a certeza de sua cura.
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A Cura
Marcos comeou a melhorar. O apetite lhe voltava aos poucos e tinha menos dores, alm de mais espaadas. Com o tratamento da Medicina terrena, tomou transfuses 
de sangue e aplicaes de soro, que estavam prescritas e lhe fizeram muito bem, acabando em parte com sua fraqueza e fazendo-o sentir-se melhor.
Recebeu o endereo de Romeu e lhe escreveu uma carta sincera, pedindo desculpas e contando sobre sua doena.
Nesse perodo, Mara o visitou por duas vezes, com seus familiares, mas evitava ficar sozinha com ele. Estava a noiva muito bonita, embora tristonha e indiferente. 
O desinteresse dela doa em Marcos, mas ele a compreendia: no fora ela feita para velar doente, mas para enfeitar a vida...
Marcou-se a segunda operao espiritual. Na segunda -feira pela manh, dirigiram-se para o interior. Ansioso, Marcos esperou pelo incio dos trabalhos.
Tudo decorreu como da primeira vez. S que, enquanto esperava, Marcos sentiu as aplicaes anestsicas e, quando estava sendo operado, sentiu que extraram algo 
de dentro de seu crebro, bem no local onde ainda lhe doa, no houve cortes fsicos nas cirurgias.
Na outra noite, aps os passes, recebeu outros remdios, e marcaram seu retorno para da a trinta dias.
O jovem mdico estava eufrico, pois sentia a sade dentro de si. Alimentava-se bem, tinha vontade de conversar e o bom humor lhe voltara. Com novas transfuses 
de sangue e soro, tornou a ser um jovem saudvel, corado e risonho. Dr. Marcondes espantou-se ao v-lo e concluiu que no necessitava mais de transfuses. Seu ex-professor 
pediu-lhe que fizesse novos exames. Marcos, porm, no quis, pois preferia esperar pela alta do centro esprita. Raramente tinha
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MUITOS SO os CHAMADOS
dores, e eram to fracas que no necessitava de remdios para cont-las.
Comprou e passou a ler obras espritas. Lia-as com ateno e estudava suas lies. Encantou-se com a clareza dos livros de Allan Kardec, principalmente com os esclarecimentos 
de O Evangelho Segundo o Espiritismo.
"vou ter sempre este livro comigo, vai ser o meu livro de cabeceira" - dizia Marcos, entusiasmado. "Quero seguir o Espiritismo."
Em sua casa, todos estavam contentes com sua melhora, mas no faziam comentrios. Seu pai estava cada vez mais calado. A me, um tanto descrente, procurava desconversar 
quando o filho falava sobre Espiritismo, principalmente perto de outras pessoas. Solange era a nica que escutava com ateno os comentrios entusiasmados da av 
e do irmo.
Mara, ao v-lo melhor, se encheu de esperana e passou a visit-lo mais, conversando como antigamente e tomaram a tecer sonhos. Marcos sentiu-se feliz, porque no 
s recuperava a sade, como tambm a noiva.
Recebeu carta de Romeu. Nela seu ex-colega escreveu educadamente que o desculpava. Dizia que desculpas no anulavam os fatos, mas tudo estava esquecido. Que j sabia 
da doena dele e sentia muito, fazendo-lhe votos de melhoras. Contou tambm que estava gostando muito do curso, e estava noivo de uma mdica americana e planejavam 
casar logo.
Marcos ficou intrigado: "J sabia". Como o amigo de longe poderia ter sabido de sua doena? Mas a carta foi posta de lado. To animado estava com sua recuperao 
que nada merecia preocup-lo.
Dr. Marcondes foi visit-lo em seu apartamento.
- Pelos meus clculos, meu ex-aluno, voc deveria estar em fase terminal ou mesmo falecido.  espantosa sua recuperao!
Marcos sentia-se curado, contentssimo, quando foi para sua terceira operao, desta vez em companhia somente do pai. D. Carmem no pde ir.
Seu corao batia forte ao ser encaminhado para a sala e acomodado na mesa.
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VERA LCIA MARINZECK DE CARVALHO / ANTNIO CARLOS
- Voc  mdico, meu filho?
Perguntou a entidade incorporada no mdium, com sotaque diferente, porm no menos agradvel.
- Sou - Marcos respondeu, emocionado.
- Tambm sou, exerci a Medicina quando encarnado, e exero-a com mais amor agora, desencarnado. Que acha de sua melhora?
- Estou assustado, mas muito feliz. Pelos clculos da Medicina terrestre j deveria estar desencarnado, porque ela nada pde fazer a meu favor. Entretanto estou 
melhor a cada dia e sinto-me bem e sadio. S uma Medicina com mais conhecimentos, como a espiritual, pde melhorar-me.
- Filho, nestas operaes que fazemos, desmaterializamos a doena e extramo-la do corpo. Voc no tem mais nada. Est curado! O cncer foi extirpado de seu organismo.
- Que Jesus seja louvado!
Foi o que Marcos conseguiu dizer, controlando-se para no chorar de emoo e felicidade. Ao ser ajudado a descer da mesa, no conseguiu se conter e as lgrimas rolaram, 
molhando-lhe o rosto. Ento, a entidade lhe disse:
- Lgrimas lavam a alma, e quando so de gratido, fortalecem a f. V em paz e lembre-se: tudo foi feito pela vontade de Deus, nosso Pai.
De volta ao seu lugar, Marcos pensou:
"Aqui renem-se encarnados e desencarnados de boavontade, para ajudar irmos necessitados, curando corpos doentes e chamando-os a sarar o esprito."
Voltou eufrico da viagem, falando o tempo todo, pois sentia-se muito bem. Seu pai sorria contente, ao v-lo recuperado.
Dois dias depois de regressar a So Paulo, Marcos foi fazer os exames que o dr. Marcondes pedira. Sentiu medo, uma ponta de desconfiana o amargurava.
"E se a cura for s aparente?" - falava a si mesmo. "Se for uma simples melhora?"
Sabia, porm, que, no seu caso, no era possvel uma melhora e esforava-se por animar-se.
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Nessa agonia  que buscou os exames. Dr. Marcondes recebeu-o com grande alegria, abraando-o.
- Voc est curado! Veja seus exames: sangue, radiografia, eletros. No acusaram anomalias. Seu cncer sumiu! Comprove voc mesmo!
Marcos pegou os exames com as mos trmulas, olhouos, teve vontade de pular; entretanto ficou parado, no conseguiu dizer nada e acabou chorando.
- Eu tambm, no seu lugar, choraria; fique  vontade. Sua alegria  minha tambm. Voc nasceu de novo!
- Desculpe-me, eu...
- Marcos, observe estas radiografias. H sinais da operao que fizemos e outros sinais. Estes aqui no fui eu quem fez, tenho certeza disso, e no me arriscaria 
a extirpar o tumor nesta rea to perigosa. Entretanto, os sinais a esto e o tumor foi extirpado totalmente. Sua cura no se deu por autosugesto. No se pode 
extrair um tumor canceroso assim, s pela vontade. Voc foi realmente operado, e a cirurgia feita com conhecimento e preciso! E deixaram sinais desta maravilhosa 
faanha. O que voc narrou deste centro esprita encabuloume. Tenho sido um ateu convicto, de vez que minha esposa, h anos, tenta me convencer da existncia de 
Deus, da continuao da vida aps a morte do corpo. Agora, Marcos, com os resultados de seus exames, sinto que o atesmo me cansa, e no responde a tantas indagaes 
e dvidas que surgem. Sua cura  um acontecimento que no sei explicar, mas vou procurar as explicaes, vou pesquisar: comearei lendo os livros que me indicou, 
sinto que neles encontrarei as respostas. Espiritismo  tambm uma Cincia, e amo conhecer com sabedoria. Percebo, meu ex-aluno, que estas respostas me levaro a 
Deus. Marcos, sua cura est dando fim ao meu atesmo j moribundo.
- O Espiritismo  fantstico! Comeo a ler sobre esta Doutrina que abrange no s cincia, mas tambm religio e at parapsicologia. Estou tentando entend-la.
-  isto a, menino! D valor ao que o curou, porque nem eu, nem a Medicina que tanto estudamos, pudemos
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ajud-lo. Deve realmente existir algo mais elevado e poderoso do que o homem, que nem curar-se de certas doenas consegue.  Deus, certamente.
- Bem, dr. Marcondes, no quero tomar mais seu tempo. Agradeo-lhe. Se tivesse de pagar seus prstimos no teria como, porque tudo o que tinha, o que havia guardado, 
foi gasto s em remdios. Obrigado!
- De nada, foi pouco o que fiz. Espero, Marcos, que voc morra de velhice.
- Obrigado, desejo-lhe o mesmo. Abraaram-se contentes.
Felicssimo, chegou em casa contando alto a novidade. Todos se alegraram, e seus pais e a av choraram de emoo. Telefonou e contou a Mara, que ficou muito feliz.
No outro dia, Marcos procurou os hospitais onde trabalhava e recuperou seus empregos. Com muito vontade, comeou a clinicar, dias depois.
No deixou de ler os livros espritas; entretanto, agora no tinha tempo, passou a estud-los menos. Porm, todos os dias pela manh, lia um texto do Evangelho e 
procurava meditar por minutos a pgina lida. Gostaria de comentar sobre os livros, todavia no tinha com quem faz-lo, pois somente a av e Solange lhe davam ateno, 
quando falava sobre eles. Mara, por sua vez, no gostava e procurava sempre mudar de assunto.
O ex-doente planejou freqentar um centro esprita, para estudar e conhecer a Doutrina, porm pequenas dificuldades fizeram-no desistir: um centro esprita era longe 
e, em outro, o horrio no coincidia com seu tempo livre, etc.
Um dia, ao chegar de um passeio com Mara, ouviu a me dizer a uma vizinha:
- Marcos nunca teve cncer, foram s comentrios, pois os primeiros exames estavam errados. O que teve foi um tumor benigno, seno no sararia.
Marcos nada disse, entrou no apartamento e sua me veio logo aps.
- Me, por que mentiu? - indagou. - Por que disse que os exames estavam errados? O dr. Marcondes no errou!
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MUITOS SO os CHAMADOS
- Quem est isento de erros? No poderia o dr. Marcondes ter errado? Com tantos exames... Depois, como iria dizer a esta faladeira que voc sarou num centro esprita? 
Iriam falar e at seramos ridicularizados. Eu, to catlica, levar meu filho a um lugar assim!...
- Me! Como a senhora  to catlica?
- Bem, imaginam.
- D. Adelaide tem razo - interferiu Mara. -  desagradvel dizer que sua cura se deu num centro esprita. Para minha famlia e amigos disse tambm que erraram nos 
exames.
- Mara, voc tambm?!...
- Meu bem, com que cara diria a eles que voc sarou num lugar como esse, de pessoas ignorantes? No sei como voc acredita. Eu no acredito! O mais certo  que os 
exames falharam, foram trocados, etc. Sabe que isto pode ter acontecido.
- No no meu caso. Eu mesmo os examinei. E o Espiritismo no  para ignorantes, porque requer, para entend-lo, muito estudo. Fui realmente curado l no Santurio 
Espiritual Ramatis
- Por favor!
Mara falou de mansinho, fazendo o biquinho que tanto lhe agradava e continuou com voz sentida:
- Acalme-se, meu bem. Sua me e eu pensamos assim, pense voc e acredite no que quiser. Mas reserve-nos o direito de julgar o que  certo. Vamos esquecer este assunto 
e no tocar mais nele. No faz diferena. O que importa  que voc est bem e curado!
Marcos ia responder, porm Mara, dengosa, arrastou-o at o sof e o beijou. Passaram a falar do futuro e Marcos se entusiasmou, planejando sobre a realizao de 
seus sonhos materiais.
Os pais de Mara ofereceram ajuda para que se casassem logo. Marcos hesitou, mas como Mara insistisse, marcaram a data do matrimnio.
O casamento foi na cidade onde residiam os familiares de Mara, e eles se casaram numa cerimnia bonita.
Freqentar um centro esprita, estudar a Doutrina, ficou para depois, e o assunto foi sendo esquecido.
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       Cinco anos se passaram. Marcos orgulhava-se dabela casa em que moravam.
Certo dia ao levantar-se, cedo ainda, abriu a janela e olhou rapidamente o bonito jardim que circundava sua moradia.
Preparou-se para ir trabalhar e foi pegar sua maleta no escritrio, que era a parte da casa que mais lhe agradava: mobiliado com gosto, tendo alguns objetos de arte 
e muitos adornos.
Mara veio ao seu encontro para despedir-se, como fazia todas as manhs.
- Meu bem - disse ela, sorrindo -, vou com Paula e o corretor hoje  tarde ver uns terrenos no Morumbi. Comprando um bom terreno, daqui a dois anos poderemos construir 
uma linda manso, com piscina e quadra de tnis.
- Ser que seus pais no ficaro aborrecidos por vendermos e mudarmos desta casa? Afinal, foi presente deles!
- Ora, Marcos, para nos instalarmos em outra melhor? Claro que no. Mame vai adorar. Voc j vai, querido?
- Est na hora.
Duas lindas crianas entraram gritando e pularam no pescoo de Marcos: eram Isabela e Rodrigo, seus filhos de quatro anos e dois anos e meio.
- Tchau, papai.
- Tchau, papai, traga balas para mim.
Marcos, aps beij-los, se dirigiu  garagem onde a empregada lhe abriu o porto. Entrou no carro esporte ltimo tipo e rumou para sua Clnica. Ia sempre pela manh 
ao hospital, onde era pediatra de clientes abastados e,  tarde, dava consultas no seu consultrio, situado numa pequena Clnica ao lado do hospital. Naquele dia 
ia passar primeiramente em seu consultrio, para ver um sobrinho que estava adoentado. Marcos
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MUITOS SO os CHAMADOS
gostava e se orgulhava do seu consultrio e da elegante Clnica, onde era scio com mais trs mdicos de renome.
Naquele dia estava pensativo, dirigiu devagar, recordando o sonho que teve com sua av. A ocorrncia se repetia h alguns meses: sonhava com ela e os sonhos eram 
parecidos. D. Carmem estava sempre muito bonita, abraava-o, beijava-o e interrogava: "Que fez voc, meu neto, dos livros que tanto queria ler? E suas crianas pobres?"
Ao parar num semforo, passou a mo na cabea e ali estava a pequena cicatriz da operao material, que no conseguira cur-lo. O Espiritismo foi esquecido e sua 
cura espiritual ficou sendo assunto proibido. Para seus novos amigos, nunca esteve doente. Esqueceram-se seus familiares do fato, e ele, de sua estranha cura.
"Que ser que minha v quer me dizer nesses estranhos sonhos?"
Sua av morrera h dois anos e no falavam dela, nem mesmo dela se lembravam, nem ele mesmo sabia por que tinha esses sonhos.
"Ora, sonhos!"
Lembranas do que lera nos livros espritas vieram-lhe  mente. E sonhar com os mortos da carne, mas vivos em esprito, pode ser encontro com eles. Porque, quando 
dormimos, o esprito fica mais livre, podendo ter encontros e conversar com os que partiram primeiro para o plano espiritual.
"Ser que encontrei com minha av?"
Marcos balbuciou como sempre fazia, quando estava preocupado. Mara ria sempre, dizendo que falava sozinho. Mas este era um dos seus costumes que no podia evitar.
"Livros?"
Aos poucos foi desinteressando-se dos livros que ficaram na parte oculta da estante, sendo que agora nem os via mais. Mara certamente dera fim neles, pois ela no 
gostava nem de v-los.
"Os livros foram esquecidos,Para que se casassem logo, os pais de Mara deram a eles aquela bela casa com jardim, e aos poucos foram decorando-a. Mara trouxera seu 
carro. Porm o que ganhava no dava
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para sustentar o luxo a que a moa estava acostumada e, assim, passou a trabalhar muito.
Amava o emprego no hospital do governo, atendendo com carinho as crianas pobres das enfermarias; continuava tambm com o emprego no hospital particular, onde estava 
at hoje. Nessa ocasio, surgiu uma vaga na Clnica, onde hoje trabalhava. Foi um primo de seu sogro que o indicara.
"Meu bem" - lembrava-se da voz suave da esposa, que a usava sempre quando queria algo -, "voc no pode perder esta oportunidade! Necessitamos de tantas coisas, 
pois nossa casa est vazia e envergonho-me de receber visitas. Como se recusa a ganhar mais? Temos Isabela e teremos outros filhos. Pense em ns, em nosso bem-estar. 
Ganhar mais  sua obrigao! Tenho me privado, desde que me casei, de tantas coisas! Depois, meu bem, quando tiver seu trabalho reconhecido e ganhar muito melhor, 
poder clinicar gratuitamente para um orfanato. No  uma boa idia? Voc cuidar de crianas pobres e abandonadas!"
Conversaram muito e ele se deixou convencer. No abandonaria suas crianas pobres, s as deixaria por uns tempos, visto que cuidaria delas no futuro. Arrumaria sua 
vida primeiro, dando conforto aos seus, e depois iria cuidar de alguns orfanatos.
Agora j ganhava bem, mas gastavam muito. A casa estava decorada, todavia j se tomara pequena. Tinham dois carros, contudo Mara queria um motorista. As crianas 
tinham tudo o que queriam. Viajavam todas as frias, porm Mara sonhava com viagens ao Exterior.
Agora, sonhavam com uma casa nova e compras de imveis para garantir o futuro.
Chegou  Clnica, foi logo ver o sobrinho. Rosely esperava-o.
- Como est grande! - exclamou ao ver o garoto.
- Cresceu sim, h tempos que voc no o v - respondeu a cunhada .
Via pouco sua famlia. Rosely se casara com Trcio e eles se davam muito bem. Seu irmo tinha um bom emprego. Eles moravam perto de seus pais que viviam, como sempre,
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agora s com Solange, que estudava e trabalhava. Sua me aposentara-se e ajudava o marido na padaria.
Atendia os sobrinhos, quando necessitavam, de graa; e s fazia isto pelos seus familiares, o que, para Mara, era o suficiente.
Marcos respondeu  cunhada, desculpando-se:
- Sabe como , morar longe dificulta as visitas, depois, como voc sabe, trabalho demais.
- Seus pais sentem falta de vocs, principalmente d. Adelaide, que quase no v os netos.
- Vamos l no domingo.
Visitavam pouco os pais e eles tambm raramente iam  sua casa, assim quase no via seus irmos. Quando casou, insistia com os seus para visit-los. Mas Mara os 
tratava com frieza e, por isso, discutiam. Como no gostava de brigar com a esposa, no mais os chamou. Quando algum de sua famlia os chamava para ir visit-los, 
respondia sempre: "No domingo, iremos". Mas no domingo Mara sempre organizava programas, ou passeios com as amizades novas que julgava importantes.
"Marcos" - dizia Mara -, "devemos nos relacionar e ter amizades com seus scios da Clnica.  to bom conviver com pessoas importantes!"
Examinou o sobrinho pensando na esposa, parecia que a via ali.
- Que tem, Marcos? - indagou Rosely. - Parece preocupado!
- No tenho nada. Estou bem. D a ele estes remdios que logo estar bem.  uma simples amigdalite.
Rosely se despediu, agradecendo.
Marcos tomou um caf e pensou nos pais.
"Domingo, iremos l. Preciso avisar Mara logo, antes que arrume um compromisso."
Lembrou-se do caf de sua me. Ningum fazia igual, nem to gostoso. Recordou-se do irmo Trcio, sempre o ofendera, pegava suas coisas, ele sempre paciente, o desculpava. 
Gostava do irmo e h tanto tempo no o via.
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VERA LCIA MARINZECK DE CARVALHO / ANTNIO CARLOS
"Bem, vou ao hospital." <  r.-.ot r
As recordaes acompanhavam-no naquela manh. Lembrou-se de sua infncia no apartamento pequeno, mas tranqilo, de sua juventude sempre com pouco dinheiro, porm 
feliz, dos seus estudos, dos amigos e colegas.
"Como estar Romeu?"
Tivera notcias dele h tempos, que viera dos Estados Unidos para o Rio de Janeiro, e que clinicava adquirindo fama na sua especialidade.
Ao entrar no hospital, lembrou-se do outro, o do governo, e das suas enfermarias; comparou os clientes: ali, crianas abastadas; no outro, as pobres que ele abandonara.
"Pobres crianas!" - disse, entre dentes.
- Que disse, doutor? - perguntou sua assistente.
- Nada, nada. Hoje estou saudoso, estranho e pensativo. Isto no  bom. Vamos ao trabalho.
Examinou seu primeiro paciente. Ao sair do quarto deveria, como de costume, entrar no outro, porm rumou para a cantina, deixando sua assistente a esper-lo.
- Um caf...
Marcos caiu. A moa da cantina tentou ampar-lo e, no conseguindo, gritou por socorro.
Marcos sentiu uma tremenda dor no peito e na cabea e sentiu tudo sumir. Apenas percebia com dificuldade a movimentao exterior, os gritos da moa, enfermeiros 
e mdicos se aproximando, depois, nada mais viu.
Sentiu-se acordar, mas um acordar estranho, tentou raciocinar e entender onde estava, no conseguia se mexer. Percebeu que respirava com a ajuda de aparelhos. Escutou:
- Dr. Marcos sofreu um derrame cerebral violento. Quase morreu!
Tentou novamente se mexer, todavia no conseguiu. Tinha as plpebras semi-abertas e pde observar onde se encontrava: reconheceu a U.T.I, do hospital, e estava em 
um de seus leitos.
Ao seu lado, permaneciam sua me e Mara, abatidas, preocupadas e chorosas.
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- Se viver, d. Adelaide, no ficar perfeito - comentou Mara, baixinho. Os mdicos me disseram. Est vivo devido aos aparelhos, e porque teve o derrame aqui no hospital.
- Confiemos, filha, ele  to moo! Ele no sentia nada? No se queixava?
- No. Parecia to bem!  uma desgraa! Planejvamos construir uma casa no Morumbi, estava to entusiasmado!
Calaram-se. Marcos pde escutar e sentir os aparelhos, teve vontade de gritar. Esforou-se, entretanto no conseguiu mexer nem um msculo. Desesperou-se e teve vontade 
de chorar. Sentiu as lgrimas sarem de seus olhos e a mo de sua me acariciando-lhe o rosto.
- Parece que chora! - disse d. Adelaide.
- Est em estado de coma. Bobagem, nada v nem ouve.
A me pegou um leno, enxugou o rosto de Marcos e fechou suas plpebras.
O desespero de Marcos aumentou, e ele nada mais viu, ficando na escurido e, naquele silncio, s escutava os aparelhos. "As duas se calaram ou foram embora" - pensou. 
Ficou s, com seus pensamentos. Lembrou-se dos filhos, amava-os tanto e eram to pequenos! Isabela, a mais velha, parecida com Mara, era uma boneca, cheia de vivacidade 
e encanto; Rodrigo era esperto, muito inteligente, forte e robusto. Queria ter mais filhos, Mara, no.
"Dois  bom" - dizia ela sempre. "Temos um casal."
Ali, imvel, sem saber o que lhe ocorria, sentiu falta deles, porm quase no tinha tempo para os seus. Quem cuidava deles eram sempre as babs. Atualmente, Madalena, 
uma senhora, era quem tomava conta deles. Mara no tinha pacincia e saa muito, de vez que tinha muitas amigas e estava sempre organizando chs e jogos.
Marcos, por sua vez, brincava pouco com eles, pois estava sempre trabalhando ou cansado, e os filhos cresciam rpido. Mas e agora? Que seria deles? Eram to pequenos 
para ficar sem o pai...
s vezes, sentia que dormia ou ficava numa estranha sonolncia e via vultos estranhos, que lhe pediam para ter
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calma e confiana. Parecia escutar a voz carinhosa de sua av a pedir-lhe que se arrependesse de seus erros e orasse.
Mas no orava e, quando saa dessa estranha modorra, tentava se mexer, mas nenhum msculo lhe obedecia. Esforou-se tanto que conseguiu abrir um pouquinho as plpebras 
e, com alvio, conseguiu ver alguma coisa, saindo do escuro.
Assim, pde ver as rpidas visitas de amigos e parentes, e ouvir os comentrios, em voz baixa, que eram sempre os mesmos: a,
- Coitado, to moo! m
- Como foi acontecer-lhe isso? .rio
- Ser que morre? j Desesperado, tentou reagir e achar uma soluo! "Sou jovem!" - pensava, aflito. "Sou jovem! S tenho
trinta e dois anos! No quero morrer! Pensem em algo para me salvar! Quero viver!"
Lembrou-se ento da outra vez que rogou por sua vida a Deus. Pediu, prometeu que se vivesse ia ser bom, dedicar-se aos pobres e doentes. Recordou-se da palestra 
que escutara no centro esprita: se no forem gratos, como pedir nova graa?
"Que fiz, meu Deus, da vida que me deste? Mas no quero morrer agora. Tenho filhos! Necessito cri-los! No  justo morrer agora!"
Novamente a modorra e os vultos e vozes a pedir-lhe calma. No queria ter calma, no queria entender nem apelar a Deus, porque Ele no estava sendo justo. Era ele 
um mdico, um ser til.
A lembrana de sua av veio-lhe forte  mente. D. Carmem sempre to boa!
"Ah, se ela estivesse aqui! Certamente me levaria a um centro esprita e me salvaria. Por que ningum se lembra disso? Se sarei l uma vez, curar-me-ei de novo. 
Por que no pensam nisso? Esqueceram-se todos? Ah! Tambm esqueci! Participei deste esquecimento. Nem quando Rui, meu grande amigo, estava com cncer, falei a ele. 
Guardamos segredo, como se nos envergonhssemos de minha cura num centro
- 56

MUITOS SO os CHAMADOS
esprita. H tempos, ningum falava mais sobre isso. A culpa  minha! Vov! Vov,  a senhora que est aqui? Meu Deus, que fiz  senhora, vov?"
Pensava, pensava... Parecia rever os fatos, lugares e pessoas. s vezes, desesperado, tentava mexer-se, mas no o conseguia.
"Minha av! Que saudade! Foi a senhora quem descobriu aquele lugar que me curou. Foi a senhora quem arrumou tudo para levar-me. E o dinheiro? Gastara em viagens 
e hospedagens. Nunca soube, nem perguntei como arranjara dinheiro! Se a senhora estivesse aqui, levar-me-ia de novo, mas j morreu!"
D. Carmem ficara doente, acamada um ano e cinco meses. Marcos foi poucas vezes visit-la e com visitas muito rpidas. No quis tratar dela, por no ser doena de 
sua especialidade.
"Ingrato! Ingrato que fui! Perdo, vov! Perdo! Poderia ter levado a senhora ao Santurio Espiritual Ramatis, para ser curada. No tive tempo! Tempo? No quis! 
Ia me dar trabalho! No a ajudei nem com dinheiro. No sobrava do nosso suprfluo. Porm sei com certeza que, se estivesse aqui, lembrar-se-ia e me levaria at l. 
Agora, ningum lembra e quero tanto ir! Sinto que l sararia novamente!"


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Pesadelo
No sabia nem calculava o tempo que estava daquele modo. Desesperava-se, acalmava-se, pensava e pensava... Tentou se mexer novamente, e nada. Comeou a sentir frio, 
sentia-se gelar e parou de ouvir sua respirao. Apavorou-se ao ouvir:
- Morreu! Meu Deus, dr. Marcos morreu! - exclamou uma enfermeira, olhando-o aflita.
"No! No!" - Marcos tentou desesperadamente gritar. "Est louca, no morri!"
Sentiu que desligavam os aparelhos e, para seu espanto, continuou a respirar. Viu muitas pessoas a seu lado, inclusive dr. Ernesto a examin-lo.
- Acabou!  sempre triste no poder salvar um amigo e colega!
"Meu Deus!" - Marcos pensou, desesperado. "Que fao? Enlouqueceram todos! Estarei sonhando? No morri! Tive algum ataque e pensam que estou morto!"
Mas sabia que no estava tendo ataque nenhum, e que dr. Ernesto no se enganaria, porque o eletroencefalograma no se engana, e os aparelhos foram desligados.
"Que aconteceu, ento? Que aconteceu?"
Saram todos, ficou s, Marcos tentou calcular o tempo, mas no conseguiu. Aproximaram-se dele dois enfermeiros e levaram-no para outro local. No conhecia a sala 
onde foi deitado numa mesa, todavia compreendeu que era a parte do hospital, onde preparavam os cadveres. Foi despido. Colocaram-lhe roupas: um terno de que gostava 
muito, e camisa de seda. Os enfermeiros conversavam animados, por estarem acostumados com o trabalho. Marcos, nervoso, sem poder fazer
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MUITOS SO os CHAMADOS
nada para chamar-lhes a ateno, para demonstrar-lhes que no estava morto, apenas os escutava: comentavam sobre o futebol do dia anterior, pentearam-lhe os cabelos, 
fecharam-lhe a boca com esparadrapo, deixando os olhos, para seu alvio, como estavam, semi-abertos.
 Pronto! Mais um pronto! Tem mais hoje? Trs, somente. Bonito este, no? aooieM
- E a esposa! Uma gata! Elegante. Todos morrem, meu caro!                                !
- Se morrem! Deixemo-lo a, logo viro busc-lo.
.o: Colocaram-no em outro lugar. Marcos achou que era em outro leito, e sentia muito frio e sede. Fecharam a tampa, e ento compreendeu que estava numa urna morturia. 
Nada mais enxergando, na escurido, desesperou-se, tentou gritar e se apavorou.
"Ai de mim! Estou num caixo! Me enterraro vivo!"
Sentiu ser transportado.
"Levam-me a outro lugar. Engraado, estou respirando normalmente." (1)
Pareceu que muitas horas se passaram e, no, poucos minutos. Sentiu que o colocaram num lugar e a tampa foi aberta. Percebeu um cheiro forte de flores e escutou 
uma choradeira. Confuso, notou pessoas colocarem mais flores em sua volta, e mais aliviado, viu Mara. <"<
"Ela saber que no morri!"
Decepcionou-se; Mara, chorosa, beijou-lhe a face.
- Meu Marcos! Por que morreu?
!soC( viu seus pais e seus irmos chorando  sua volta, e tambm amigos, conhecidos e colegas. Sua me chorava e gritava:
- Meu Deus, por qu? No o meu filho! To jovem! Por que no me levou no seu lugar?
Foi amparada por parentes, viu seu pai, que se aproximou quieto e silencioso, como sempre fora.
(1) A desencarnao procede de vrias formas. Podemos dizer que  uma colheita. A reao da ao da vivncia encarnada. Para muitos  um sono tranqilo e despertar 
maravilhoso, para outros um pesadelo de que lhes parece no mais acordar. No sendo iguais, cada um tem a desencarnao que fez por merecer.
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-VERA LCIA MARINZECK DE CARVALHO / ANTNIO CARLOS -
Mara sentou-se ao lado do caixo e Marcos achou-a linda num vestido preto e branco. Chorava o tempo todo e era consolada pelas pessoas, amigos e parentes. Suspirava, 
reclamando:
- Era to moo! Amvamo-nos tanto! Fomos to felizes! Que vai ser de mim, agora? Como viverei?
"E eu, sem vocs? No pensam no que vai ser de mim?"
- Marcos indagava aflito. "Por que ser que pensam sempre neles? E eu? Que fao, aqui?"
Num puxo, foi-lhe tirado o esparadrapo da boca, mas no sentiu dor, s o frio o incomodava, era um frio terrvel.
"Que frio! Se pudesse, bateria os dentes" - pensou aflito.
Sem nada poder fazer, porque no conseguia fazer nada nem sabia como agir, ficou prestando ateno nos comentrios. Para todos, ele era jovem, bom, bonito, etc.
Quando algum orava por ele, sentia-se melhor e via vultos que lhe pediam para ter calma e confiana.
"No quero calma, nem confiana! Necessito sair daqui ou iro enterrar-me; quero acordar deste pesadelo!"
Num "ai que d", exclamado por um dos presentes, viu a bab com seus filhos. Isabela, sria, depositou um beijo na sua face, e Rodrigo ficou no colo de Madalena.
- No quero! - gritou o caula. - Papai est frio e quieto! Quero ir para casa!
Comeou a chorar alto.
-  melhor lev-los - disse d. Adelaide -, so to pequenos! Que vo entender?
Muitas exclamaes: "To pequenos sem o pai! Coitados! To lindos!"
- Leve-os, d. Madalena. Cuide deles para mim, por favor
- Mara falou sentida e comeou a chorar alto.
Marcos escutou muitos choros.
"Que choradeira! Meus filhos foram embora!  a ltima vez que os vejo! Ser que no acordo deste pesadelo? Nunca vi sonho durar tanto! Que est acontecendo comigo? 
Por que no consigo demonstrar que estou vivo?"
- D. Adelaide, ele est com os olhos semi-abertos,  to feio!
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MUITOS SO os CHAMADOS
Escutou o infeliz comentrio e sentiu a mo de sua me acariciando seu rosto, dizendo-lhe:
- Marcos, feche seus olhos! Feche-os, meu filho.(2> Os dedos de d. Adelaide foraram-lhe as plpebras e o
escuro novamente se fez.
"O escuro no! O escuro no, meu Deus!"
- Que hora faleceu?
Reconheceu a voz do dr, Marcondes. Sem saber o porqu, ficou com a ateno somente na voz do seu ex-professor, pois sentia que ele no falava alto, mas pensava, 
orava, e com isso foi se sentindo mais aliviado e at acompanhou sua orao:
"Deus, meu Pai, permita que seus bons espritos ajudem a este irmo! Fazei com que ele possa ser desligado da matria e possa reconhecer seu estado de desencarnado. 
Ajudem-no, bons espritos, socorram-no nesta hora em que tanto necessita. Marcos, calma, pacincia, aceite o auxlio que amigos querem lhe dar, seja humilde, procure 
ter paz e no se revolte."
Marcos acalmou-se, a orao sincera o ajudou muito, por isso pde ver vultos novamente, e um deles pegou-o pela mo e deu-lhe um puxo, que o fez sentar-se. Abriu 
rpido os olhos, alegrou-se por poder abri-los. Enxergar foi um alvio, porque no tolerava mais ficar na escurido. Viu, ento, que estava numa sala cheia de pessoas, 
flores e reconheceu seus familiares.
Novamente outro puxo, e ficou de p ao lado de uma grande vela.(3) Sentindo-se tonto, confuso e fraco, sentou-se numa cadeira vazia.
(2) Na Espiritualidade no se segue regra geral. Nem todos os cadveres com os olhos semi-abertos passam pelo que aconteceu com o personagem da histria.
(3) Com o pedido sincero que dr. Marcondes fez pelo amigo em orao, uma equipe de socorristas desligou Marcos esprito, do corpo morto; s vezes, muitos imprudentes 
ficam unidos aos corpos e sentem o sepultamento. Orar com f pelo desencarnado  de muita ajuda. Se Marcos orasse, teria sido socorrido. A orao  uma das maiores 
foras de que dispomos a nosso favor e a favor de outros. Infelizmente, Marcos pde ser somente desligado e no socorrido. ""         61


VERA LCIA MARINZECK DE CARVALHO / ANTNIO CARLOS
"Que sufoco! Ainda bem que vejo!" - falou devagar, ningum o olhou e teve a impresso que nem o escutavam.
Tonto, parecia que tudo girava. Sentia muito frio e um tremendo mal-estar.(4) Ficou quieto e, minutos aps, um senhor chegou perto da cadeira em que estava sentado, 
com a inteno de sentar-se. Marcos se levantou e o homem sentou.
"Que mal-educado! Quase que senta em cima de mim! Ser que no enxerga?"
Arrastando-se, sentia os membros duros e frios e saiu da sala. Aproximou-se de um vitr e respirou o ar puro que lhe fez bem e, assim, sentiu-se menos tonto.
"O cheiro das flores me fez mal!"
Ali ficou encostado, escutando as conversas. Comentavam sobre tudo: futebol, doenas, mortes, cozinha, costura, festas, escndalos, etc.
Comearam a orar alto e Marcos tentou acompanhar e orar tambm, pois se sentia atordoado, mas ficou olhando as pessoas, tentando entender o que fazia ele ali.
As pessoas foram saindo.
- Fecharam o caixo! - Pobrezinho, vai ficar to s!
- falou algum ao seu lado.
A voz era sentida, Marcos se comoveu e as lgrimas caram pelo seu rosto. Ficou vendo as pessoas passarem, algumas de cabea baixa, mas todas em silncio; se falavam, 
era baixinho.
- Que descanse em paz!
- Coitado! Que a terra lhe seja leve! -ug
-  to triste! un
- Que Deus o ajude a reconhecer seu estado de desencarnado! - era a voz do dr. Marcondes e esta frase pareceu a Marcos que era dirigida a ele. Pensou nela por um 
instante, sem contudo entend-la.
Saram todos. Marcos, arrastando-se com dificuldade, foi atrs. No podia se aproximar demais, havia muitas pessoas e uma senhora quase lhe passa por cima.
(4) Sem saber que desencarnara, ficou sentindo as sensaes do corpo.
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MUITOS SO os CHAMADOS
"Parece que no me vem! Que lugar  este? Ser um cemitrio?"
As pessoas foram saindo, indo embora. Marcos, vendo seus pais abraados  Mara, quis se aproximar e abra-la tambm, mas no teve tempo, porque eles saram com 
as outras pessoas, indo embora tambm.
Ficou sozinho. Aproximou-se do lugar em que estavam seus pais com Mara, e viu uma carneira.
"Que  isto? Parece um tmulo!"
Mais confuso ainda, caminhou de volta  sala onde esteve, mas agora estava vazia; sentindo-se s, tremendamente s, sentou-se numa cadeira e chorou alto. Lgrimas 
abundantes molharam-lhe o rosto, todavia o choro lhe fez bem, aliviando-o e, assim, sentiu-se melhor.
Outras pessoas comearam a entrar na sala e eram indivduos estranhos, a maioria chorando. Marcos escutou em tom zombeteiro:
"Mais um que morre!"
Levantou-se e saiu, pois sentia muito frio e um mal-estar que o incomodava muito. Andando com dificuldade, pois todo seu corpo doa e as pernas pareciam-lhe pesadas, 
procurou um lugar para sentar-se e viu uma torneira aberta; aproximou-se, sedento. A gua parecia cristalina e fresca e, com dificuldade, absorveu com as mos um 
pouco d'agua, sem entretanto matar a sede, pois s a amenizou. Sentindo-se muito cansado, sentou-se num degrau no cho.
"Esta roupa me incomoda. No sei por que estou vestido assim, com o terno novo, camisa de seda e gravata italiana.
Que estarei fazendo aqui? Por que ser que no acordo deste pesadelo? Ser que tudo isto  sonho?"
- No  sonho, voc morreu mesmo! ..:   ;-  bem gr-fino o rapaz!
- Oh! Idiota! Observe bem, voc est morto! Mortinho!
- Calma, rapazes, o gr-fino parece "guardado", pois no podemos nos aproximar, seno iramos peg-lo e nos divertir muito.
- Voc est morto!  defunto!
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-VERA LCIA MARINZECK DE CARVALHO / ANTNIO CARLOS-
Uma turma de mal-encarados, a alguns metros dele, zombava e ria. Marcos olhou-os bem, mas no os conhecia; estavam vestidos de forma estranha, maltrapilhos, sujos, 
e as mulheres muito enfeitadas. Com expresses zombeteiras, divertiam-se, vendo-o ali perturbado e temeroso. Marcos apavorou-se e falou baixo:
- Que fao? Devem ser bandidos e da pior espcie. Devo chamar a polcia!
- Que polcia! - disse um deles, que estava com um rolo grande de pau nas mos.'5' Nenhum guarda o v. Voc, beleza, morreu! Almofadinha covarde, tem medo! Se no 
fosse esta luz a proteg-lo...
- Socorro! Socorro!
Eles riram mais alto, achando graa e se divertindo com a aflio dele.
- L vem ele! - exclamou um deles e, nisso, correram todos, um em cada direo. Marcos olhou, olhou, no viu ningum que pudesse ter posto os malfeitores em fuga.
"J que no acordo deste estranho pesadelo, vou me embora. Que loucura!"
divertindo-se. Mesmo sendo maus, aqueles que tem conhecimentos, podem plasmar qualquer objeto.  comum v-los com armas e objetos de tortura.
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 ABeira da Loucura
Marcos estava com o corpo gelado e seus membros pareciam endurecidos e, assim, caminhou arrastando-se para um grande porto, onde viu um estacionamento e um jardim.
"Que sorte, l esto os txis!"
Aproximou-se do primeiro txi e viu um senhor limpar o carro com um pano, assobiando contente.
"Por favor, pode levar-me? Posso entrar? Est livre?"
Nada do senhor responder-lhe. Parecia surdo, pois continuava a assobiar, sem lhe dar ateno. Marcos lembrou que no deveria ter dinheiro e, procurando pelos bolsos, 
nada encontrou, estavam vazios.
"Faa a corrida, amigo; em casa, pago-lhe. No confia? Pagarei sim, pois sou boa pessoa, sou mdico. Faa o favor de prestar ateno, seu mal-educado. No quer nada 
com a dureza, hem? Nada de fregus?"
Tentou abrir a porta do carro, no conseguiu.
"Trancada, vou at o outro."
No outro txi, um moo lia o jornal sentado no banco da frente. Novamente ele tentou abrir a porta.
"Trancada tambm! Moo, faa a corrida que lhe pagarei quando chegar. No quer? Por qu? Duvida que lhe pague? No sou um qualquer, deveria reconhecer pelas minhas 
roupas. Vocs so um bando de vagabundos, pois rejeitam fregueses. Por que no larga o jornal? Nem me responde..."
Foi at ao ltimo.
"Est trabalhando?" - Marcos perguntou esperanoso a um senhor de meia-idade, que estava encostado no txi. 'Tambm no fala,  surdo?"
- Pode subir, est livre.
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VERA LCIA MARINZECK DE CARVALHO / ANTNIO CARLOS
"At que enfim!" - Marcos suspirou.
Mas... O chofer abriu a outra porta e uma senhora entrou no txi.
"Cheguei tarde. E agora? Que fao? Ser que consigo ir andando?"
Viu um orelho.
"No tenho fichas. Aqui parece que desconfiam de estranhos, mas tambm com tantos vagabundos..." - pensou no bando de malfeitores que o cercara. "Ser que estou 
ainda sonhando? Estranho este sonho, no acaba e tudo d errado."
No estava muito longe de sua casa e, com calma, poderia ir andando. E, assim, foi.
"Que situao! Sem dinheiro, bem arrumado e tendo de andar a p. Parece que todos ficaram loucos!"
O exerccio que fazia, esforando-se por andar, estava fazendo-lhe bem. Sentindo-se um pouco melhor, ia atento ao trnsito, onde as pessoas passavam por ele, apressadas.
"Que frio! Engraado, parece que as outras pessoas no me sentem."
- Ol, bonito! Aonde vai?
Uma moa esquisita, muito enfeitada, olhando-o fixamente, falou dirigindo-se a ele. Marcos achou-a estranha, mas, como era a nica que parecia v-lo e lhe dirigia 
a palavra, parou e respondeu:
- Para casa. No tenho dinheiro para um txi, esqueci-o...
- Tambm no tenho. No precisamos disto. No entende? No sabe?
- Obrigado,   mesmo assim.   Se  tivesse,  poderia devolv-lo com gratificao. Devo ir-me...
- Por que no pega um nibus?  interessante. Vem! Uma voz que Marcos no sabia de onde vinha falou-lhe:
"No v! No v! Continue andando!"
- No, obrigado, tenho que ir andando.
- Est com medo de mim, fofo?
- No,  que tenho que ir mesmo.
A moa ia pux-lo, tentou segurar sua mo.
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MUITOS SO os CHAMADOS
- Ai! Por que no disse logo que  protegido? Seu banana!...
- Eu... ora, sua louca, deixe-me. Continuou andando e a moa sumiu.
"Acho que no darei confiana a mais ningum. Que cansao! Pensei que fosse mais perto."
Passando por uma pracinha, Marcos foi at l e se sentou num banco, ao lado de duas garotas. As mocinhas conversavam animadas, mas, assim que ele se sentou, se calaram.
- Vamos mudar de banco, Las, aqui ficou frio de repente.
- Vamos!
k      Saram rpido.
9       Marcos foi olhar as horas, e procurou o relgio.
"At sem relgio! Perdi ou me roubaram. Acho que foi isto, assaltaram-me. ..."
Tentou recordar, mas sua cabea girava, sentiu-se cansado e com sono.
"vou indo, l em casa descansarei. Deve ser tarde e logo ser noite, a esfria mais..."
Viu outro txi e acenou para que parasse, mas no conseguiu. Tentou mais trs vezes, mas nada, pois passavam como loucos e pareciam no v-lo.
Com muito esforo, continuou andando. O alvio foi grande, quando viu sua casa.
"At que enfim! Que bonita! Como  bom estar em casa!"
O porto estava trancado, procurou pelas chaves, todavia os bolsos estavam vazios. Tocou a campainha, bateu palmas, esperou. Veio a empregada.
"U!" - exclamou ela olhando para os lados. "Parece que ouvi bater!"
Falou alto e abriu o porto. Marcos entrou.
"Sou eu, sua tonta! Onde esto todos?" ^q -
"Todos j foram dormir, vou tambm" - falou a empregada, resmungando. "Estou impressionada com estes acontecimentos."
Fechou o porto e Marcos acompanhou-a pelos fundos, porque a parte da frente estava com as luzes apagadas e toda fechada.
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-VERA LCIA MARINZECK DE CARVALHO / ANTNIO CARLOS -
"Esto dormindo, no quero acord-los."
Marcos muitas vezes chegava tarde em casa, entrando silenciosamente para no acord-los e, se era muito tarde, ia dormir no quarto de hspedes, para no incomodar 
a esposa. Ao ver seu quarto trancado, foi para o de hspedes acomodar-se no leito.
"Que cansao! Que frio!"
Dormiu logo e sonhou com sua av.(1) 
"Marcos, juzo" - dizia ela -, "agora estar sozinho, vou embora, tenho que ir. Preste ateno, meu neto, tenha cuidado. Lembre-se de Deus! Ore! At logo!"
"Que estranho estar com minha av! Que sonho esquisito! Que recomendaes ridculas! Que frio! Que fao no quarto de hspedes?"
Tentou lembrar, mas estava confuso.
"O assalto! Levaram-me tudo. Entretanto no me lembro do assalto! Fui mesmo assaltado? Cheguei tarde e todos dormiam. E estas roupas? Por que dormi com elas? Deveria 
estar no hospital. Que confuso! Ser que acordei? Ou estou sonhando dentro de outro sonho? Ser que enlouqueci? Estarei doente?"
Levantou-se, foi ao banheiro, porm no conseguiu abrir a torneira.
"Estar estragada?"
A porta do quarto estava semi-aberta e escutou barulho, vozes, ento arrastou-se at o corredor e viu Mara, plida, dando ordens s empregadas.
- Cuidem bem das crianas e faam o que elas querem, pois no sinto nimo para nada. Estou to cansada!
"Pobrezinha!" - disse Marcos indo ao seu encontro.
- A morte  to triste! - Mara disse para as empregadas.
- Por que os jovens morrem?
Sentou-se no sof chorando alto.
>T|J>Q1
(1) Quando nos iludimos, as sensaes da iluso nos acompanham. Marcos no quis aceitar a morte do corpo, e agia como encarnado, tendo todas as necessidades de um 
encarnado. Descansando no leito, v d. Carmem e fala com ela, lembrando-se somente do mais importante.
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MUITOS SO os CHAMADOS
"Quem faleceu? Seu pai?" - Marcos indagou-lhe, sentando ao seu lado. "Ele no era to jovem e seu corao, fraco. Mara, por que est sofrendo assim!"
- Marcos! Meu Marcos!
"Aqui estou, meu bem. No chore assim!"
- Que frio! - Mara exclamou. - Madalena, feche a janela, est frio.
- D. Mara, hoje est quente. Ser que a senhora tem febre?
"Deixa-me ver" - Marcos estendeu a mo colocando-a na testa da esposa.
Mara levantou-se num pulo, indo para o outro lado da sala.
- Mame! Mame!
Marcos sorriu, quando seus filhos entraram na sala e foram abraar Mara.
"E para o papai, nada?"
- Mame, o papai no volta mais? - indagou Isabela.
-  verdade o que Madalena falou?
- Papai morreu, meu bem. Foi morar com Deus - Mara respondeu, sria.
- Por que, mame, ele no gosta daqui? - quis saber o caula.
- Rodrigo, voc  pequeno para entender.
" mentira! Estou aqui!" - Marcos gritou. Entretanto ningum pareceu escut-lo.
- Que frio est fazendo aqui! Mame, podemos brincar l fora? - indagou Isabela.
- Madalena, por favor, v com eles.
As crianas saram, e Marcos dirigiu-se  esposa:
"Mara, quero falar com voc seriamente. Que significa o que disse s crianas? Voc disse que morri? Fui morar com Deus. Est com raiva de mim?"
Levantou e se aproximou dela. Nisso, Mara se queixou em voz alta:
"H um ms apenas saiu de casa, como sempre fazia. Passou na clnica para ver o sobrinho e, a caminho do hospital, teve aquele maldito derrame. H treze dias, enterramo-lo
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VERA LCIA MARINZECK DE CARVALHO / ANTNIO CARLOS
naquele lugar horrvel e l ficou sozinho. Por que cemitrio  to triste?"
"Brincadeira tem hora! Ontem fui ao hospital e agora estou aqui. Espera l!" - Marcos se apavorou. "Enterrou-me? Pare com estas brincadeiras! Voc, Mara, est perturbada 
com a morte de seu pai. Voc est doente?"
Nesse instante, a porta se abriu e os pais de Mara entraram.
- Papai! Mame! Sofro tanto!
- Filhinha!
Marcos olhou-os, assustado. Ento no era o pai de Mara quem morrera. Ali estava o sogro, forte como sempre. Teve a inteno de cumpriment-los, mas eles, orgulhosos, 
fingiam no v-lo; ficou quieto, escutando.
- Filha, devemos tomar algumas providncias.    ,
- J, papai? meio'
- Claro, tem dois filhos para criar. ', 
- Receberei a penso?
- Deve ser bem pouco e isto me preocupa. Preciso examinar os papis de Marcos. Mara, seu jovem marido, como todos ns, no esperava ir to cedo e, por contribuir 
pouco, a penso ser insignificante.
- Papai, que vou fazer para viver?
- Calma, meu bem. Talvez tenha de diminuir as despesas, ou mesmo vender um carro.
- Como sou infeliz!
- Mara, lembre-se das crianas, voc precisa de coragem
- disse sua me.
- S me preocupo com elas, e  pelas crianas que tento ser forte, seno iria com Marcos.
"Barbaridade! Parem com esta brincadeira!" - Marcos gritou.
- Que sala fria! Abra a janela para entrar ar. vou at ao escritrio ver os papis do meu genro - disse o sr. Leandro, saindo da sala e se dirigindo para o escritrio.
"Meu sogro no iria brincar assim! Ele  sempre srio!"
- Marcos pensou. "Parece que todos esto realmente tristes e srios. Que est acontecendo?"
70 MUITOS SO os CHAMADOS
Sentiu-se triste, cansado e foi para a cozinha. Ao ver a empregada tomando caf, sentou-se e tomou tambm. Sentiu-se, ento, mais fortalecido.'2 
"Esta a  outra que finge no me ver. Como estou cansado! Deve existir uma loucura coletiva aqui em casa. Ser que acabei louco tambm?! Ou ser que sou eu o louco? 
Bobagem, estou muito bem e minha mente est tima. Estou somente cansado, porque trabalho demais; mas tenho frio, acho que vou ter uma gripe."
Entrou em seu quarto, deitou-se e dormiu.
Acordou e, ao ouvir conversas na sala, levantou e se dirigiu para l.
"Boa-tarde, Csar!"
Saudou-o contente, indo ao encontro do amigo e scio da clnica. Este nem o percebeu e continuou a falar:
- D. Mara, as despesas do consultrio continuam: o aluguel, o telefone etc. Se ceder a sala de Marcos ao dr. Fbio, ter despesas a menos. Vendendo os mveis, lucrar, 
sem dvida. Que far de tudo aquilo?
- Est certo, dr. Csar, Mara deve vender e logo. Imagine o senhor que o meu genro s contribua com dois salrios para a aposentadoria? Mara receber muito pouco, 
de penso. Agradecemos ao senhor por ajudar-nos.
- Tambm estou pagando pouco para a aposentadoria, acho que aumentarei. Ento, d. Mara, tudo certo? timo, trarei o cheque amanh.
- Dr. Csar, agradeo-lhe e amanh cedo irei  clnica, para pegar somente os objetos pessoais de meu marido.
- Mara, vou deixar tudo arrumado para voc, antes de irmos embora. Sua me tem razo,  melhor diminuir as despesas e cortar tudo o que  suprfluo.
- Papai, est sendo to difcil! Amanh despedirei as duas empregadas, e ficarei s com a cozinheira e Madalena.
121 Pensando estar encarnado, Marcos se alimentou dos fluidos dos alimentos que a empregada ingeria, sentindo-se fortalecido por ter sugado energias dos alimentos, 
e da encarnada. So vrios os livros espritas que citam passagens semelhantes.
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-VERA LCIA MARINZECK DE CARVALHO / ANTNIO CARLOS -
- Tudo dar certo, filha, cuide voc das crianas, assim se distrair. Voc no deve ficar triste como est.
- O dinheiro que recebi no dar para as despesas...
- Dar, se no gastar muito; seno, ter de mudar desta casa e alug-la.
- Isto, no! Amo esta casa! Mudaria s se fosse para outra melhor.
- J faz um ms que Marcos se foi, Mara, seja realista. "Um ms?! Eram treze dias! Tudo neste sonho, ou passa
rpido ou demora muito. Ser que dormi tanto?"
Marcos sentou-se perto do sr. Leandro, mas este logo reclamou estar sentindo frio e que ali estava esquisito.
Marcos comeou a ter dvidas.
"Ser que morri mesmo? A morte seria esse pesadelo? Ningum me ouve, nem me v; falam de mim no passado, como algum que se acabou. Ser que, num ataque de loucura, 
imagino tudo isto?"
Ficou ali pela casa: comia com os familiares e dormia no seu leito, encostado em Mara, para sentir seu calor. Mas no conversava mais, s escutava.
Um dia, ouviu Madalena falar  Isabela:
- Menina, preste ateno, voc no deve perguntar de seu pai  sua me, porque ela chora. Seu pai, querida, morreu. Todos morrem. E ele deve ter ido para o Inferno. 
Ingrato, orgulhoso! Tratou do meu Benito, quando ele estava doente, e descontou seus prstimos no meu salrio! No deve estar em bom lugar.
"Eu, no! Nem sabia disso! Deve ter sido Mara!" Marcos falou, indignado.
- Meu pai no foi para o Inferno! - Isabela reclamou.
- Claro que no, mas sua boneca est chorando, v peg-la.
Isabela pegou a boneca e saiu correndo.
"Isto no fica assim. Que maneira de falar com uma criana!" - Marcos saiu  procura da esposa.
"Mara! Mara! Est a lendo e no v o que esta bab fala  nossa filha?"
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MUITOS SO os CHAMADOS Mara largou o livro e ficou quieta. Est me ouvindo? Acertou tudo, papai? Nesse instante entrou seu sogro. Comear a receber daqui a quarenta 
dias, no mximo; infelizmente  s isto mesmo. Ter que diminuir as despesas, pois o dinheiro da venda do carro no  muito e vocs no tinham nada guardado.
- Com o que tnhamos, paguei as despesas funerrias.
- Vamos embora amanh. No d mais para estar longe de casa. Mandarei a voc uma quantia em dinheiro, todos os meses.
- Agradeo-lhes, pois sei que tudo o que era possvel, vocs fizeram por mim. Papai, vou ao mdico, porque no estou me sentindo bem, pois sinto frio e muitos arrepios. 
Ainda h pouco, antes de o senhor chegar, parecia que algum me chamava. Os ltimos acontecimentos mexeram com meus nervos!
Marcos, ao escutar, sentiu uma tristeza enorme, e entrando no quarto de hspedes, chorou muito. Lembrou-se de que s a moa na rua e o bando de malfeitores o viram 
e falaram com ele.
"Por que aconteceu tudo isso? Ser que devo sair? Ir a um hospital? Estarei doente? Devo trocar de roupas?"
Tentou abrir a porta do armrio, porm no conseguiu, pois parecia trancada. Quis trocar de roupa, porque ainda estava com o terno e com a camisa de seda.
Voltou ao quarto de hspedes e ficou a pensar nos acontecimentos, quando, ao tentar sair, no conseguiu, porque a porta estava trancada. Por trs dias ficou preso, 
sentindo-se fraco e triste, at que Madalena abriu o quarto para limp-lo.
- Isabela, vem! - disse a empregada. - Que quarto frio! Estranho!
Abriu a janela, e Isabela, com um pano na mo, entrou no quarto. Esprito atravessa a matria densa facilmente, porm necessita conscientizar-se desse fato e aprender 
a faz-lo.
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VERA LCIA MARINZECK DE CARVALHO / ANTNIO CARLOS
"Filhinha, como est linda! Voc no deveria ter ido  escola?" - Marcos indagou, mesmo sabendo que no iriam responder-lhe. Porm, a menina indagou alto  bab: 
por que no vou mais  escola?
- Isabela, as coisas no andam bem, sua me precisou tir-la da escola por uns tempos. Como, tambm, para diminuir as despesas, dispensou as outras empregadas. Por 
isso, este quarto ficar trancado e s o limparei uma vez por semana.
Marcos ao ouvir isto saiu rpido, temendo ficar trancado novamente.
Andou o mais rpido que conseguia, pois sentia os membros endurecidos e, atravessando a casa vazia, passou pelo porto aberto e ganhou a rua. Viu que nada mudara: 
a rua e a casa pareciam como antes.
"E eu? Estou louco? Estarei com alguma doena mental? Por que tudo est to confuso? Ou serei eu o confuso?"

Onde vou agora? Marcos continuou a pensar. Talvez deva ir a um hospital, assim saberei o que se passa comigo. Se no estou bem, devo tratar-me. Um sanatrio?... 
No, isso  to triste!  melhor ir aonde conhea e seja conhecido."
Foi andando distrado, no tentando mais pegar txis, e prestava ateno somente ao atravessar as ruas. Andou por horas, at que chegou. Passou pela portaria, sem 
que ningum o visse, e andou pelos corredores. A, viu dr. Urias, antigo benfeitor daquele hospital.
"Credo! Dr. Urias faleceu h anos!" - Marcos exclamou, assustado. "Como pode?! Acho que o estou confundindo com outro, mas vou cumpriment-lo."
- Boa noite!
     Boa noite! respondeu-lhe sorrindo com voz agradvel. Responde? Voc me v?  o dr. Urias? Sou. Claro que o vejo. Como est, dr. Marcos? Nada bem, tenho vises 
e.. Dr. Marcos, j est na hora de analisar-se e entender o que lhe ocorre.
- Hum... Por que fala comigo, se j morreu?
- Por que voc tambm j fez sua passagem. Ousadia! Fala que morri tambm?! Dr. Urias estendeu-lhe as mos, Marcos saiu correndo e
s parou quando se viu fora do hospital. Quando nos iludimos,  difcil abandonarmos as imagens que criamos. No aceitando, no querendo a realidade, envolvemo-nos 
de tal forma nesse engano, que no ouvimos argumentos em contrrio. Chegamos mesmo a temer, por vermos pessoas que sabemos que desencarnaram, e pensamos estar vendo 
fantasmas.
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-VERA LCIA MARINZECK DE CARVALHO / ANTNIO CARLOS -
Sentou-se no cho cansado pelo esforo da corrida e pensou:
"E se ele vier atrs de mim?"
Levantou-se e ps-se a andar sem rumo.
A noite era escura, sem estrelas, por isso Marcos procurou andar bem perto das paredes, para no ir de encontro s pessoas. Viu uma pracinha e foi at l, onde um 
grupo de pessoas ria alto e, entre eles, viu a moa com quem conversara outro dia.
- Hei! Oi! - Marcos disse abanando-lhe a mo.
- Voc? Ainda assim? - a moa aproximou-se dele, sorrindo. - Bonito! Venha c, apresentarei a turma a voc. Como se chama?
- Marcos.
- Eu sou Tereza. Hei! Turma, este  o Marco, este aqui ...
Falou o nome de todos. Pessoas estranhas e esquisitas. Marcos no gostou deles, mas sentia-se to sozinho e estava com tanta vontade de conversar, que ficou com 
eles.
- Estamos planejando uma farra, vamos sair, beber e nos divertir. Vem conosco?
Tereza no deu tempo para que ele pensasse e, puxando-o pela mo, entraram num carro em que estavam pessoas tambm estranhas. Amontoaram-se. O outro grupo que estava 
antes no carro, parecia ignor-los, porm estavam tambm vidos de prazer.(2)
Entraram numa boate de baixa categoria e comearam a fumar, beber e danar. Marcos logo sentiu o efeito do lcool. Ficou embriagado, por momentos, e sentiu-se alegre. 
Viu que bastava encostar nas pessoas para sentir o sabor de bebidas. A turma danava e gritava, incentivando outros a fazerem o mesmo. Tiraram-lhe o palet, e Marcos 
ficou olhando-os abobalhado, confuso, pois era empurrado de um lado para outro e, afinal, foi atirado em um canto, onde adormeceu. Eram pessoas encarnadas, que se 
afinavam com o grupo desencarnado.
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MUITOS SO os CHAMADOS
Acordou mais tonto ainda, sem foras para nada. Tentou reconhecer onde estava, e notou estar escuro, e que s dava para ver o que se achava perto. Via-se deitado 
no cho mido, lodoso, ftido, e estava sem camisa, com as calas rasgadas e muito sujo. Sentiu nojo, pois parecia que nada ali era limpo.
Sentou-se com dificuldade, e tentou coordenar seus pensamentos, que eram muito confusos. No teve foras para levantar-se, de vez que se sentia fraco, doente e com 
muita dor na cabea. Arrastou-se de gatinhas, sentindo nuseas do cho. Pde ver que no estava s, e que outras pessoas, em situao semelhante, se aglomeravam 
pelo cho. Tentou indagar, para saber onde estava, mas a cada indagao sua recebia por respostas monosslabos e gemidos. Pareciam-lhe abobalhados, tristes e sofridos.
Marcos sentou-se num canto. s vezes, arrastava-se tentando sair daquele lugar horrvel, todavia s conseguia se locomover por alguns metros. Gemidos ouvia a toda 
hora, sendo que ele mesmo passou a gemer de fraqueza, fome e sede, alm do frio que muito o castigava. No conseguiu calcular o tempo, nem mesmo se era dia ou noite, 
porm parecia que muitos anos se passaram, sem que se amenizasse seu sofrimento. De vez em quando, um bando de malfeitores, pessoas de expresses estranhas e ms, 
passava por ali, provocando pnico em todos. Quando iam embora, a fraqueza era maior e a tristeza tambm.
Aps um tempo que, para Marcos pareceu ser eterno, j quase no pensava, nem mais conseguia sentar-se, somente se arrastava pelo cho, chorando e gemendo. Vagamente, 
lembrava-se dos acontecimentos e a sentia saudade de seus familiares, de sua casa, de tudo o que lhe pertencia. Revoltava-se, achando que era injusto seu sofrimento. 
Matava a sede em filetes d'agua e comia ervas sujas do cho. s vezes, chegava perto dos outros, que pareciam farrapos humanos, pois Marcos estava nas furnas, no 
Vale de Sofrimento no Umbral. Nem no sofrimento, porm, lembrou-se do Pai Misericordioso; revoltou-se, agravando seu estado.
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VERA LCIA MARINZECK DE CARVALHO / ANTNIO CARLOS
no- conversavam, nem entendiam. Apenas, todos muito sofriam. Marcos j nem tentava mais saber onde estava; e, como queria sair dali, pensou em seguir o bando que 
os visitava, mas, quando este passava, no agentava nem se arrastar. Comeou, ento, a tem-los, como a seus companheiros.
- Marcos,  voc?
Olhou assustado para o vulto que o chamava. Uma moa em p olhava-o, examinando-o. Ele a reconheceu.
- Tereza! - exclamou esperanoso. - Ajuda-me. No consigo me levantar.
- No sei se posso. Tentarei.  isto o que d no acreditar na verdade. Voc morreu, bonito, seu corpo morreu e voc vive agora em esprito. Apie-se em mim, assim... 
fora! vou ajud-lo, vamos devagar. Que sorte a sua eu estar passando por aqui!
Tereza segurou-o pela cintura, Marcos apoiando-se nela e, com dificuldade, os dois foram andando. No se despediu dos companheiros e estes nada falaram: s se ouviam 
gemidos.
- E eles? - Falou Marcos com dificuldade, quis saber sobre os companheiros de infortnio.
- Sairo um dia, preocupe-se agora com voc, somente, meu caro.
Marcos teve a impresso de que passavam por labirintos, mas a paisagem mudava pouco, pois tudo era semi-escuro, ftido, frio, feio e triste. Esforou-se ele para 
caminhar e Tereza seguia cautelosa pelas trilhas escorregadias. Andaram um bom tempo, s escutando gemidos e pragas.
- nimo, Marcos, falta pouco - Tereza animou-o. Saram daquele estranho lugar. Ele, aliviado, viu as ruas
de So Paulo. O ar lhe fez bem, e respirou forte. Via agora tudo claro e, ao sentir o calor do sol, emocionou-se.
- Obrigado, Tereza.
Marcos no conseguia ficar em p sozinho. Tereza colocou-o ento no meio de outras pessoas.
- Vamos, Marcos, puxe energias, observe como eu fao. Vamos!
Marcos fez o que lhe recomendava e logo se sentiu melhor, pois as foras lhe voltavam.
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MUITOS SO os CHAMADOS
- E isto a, garoto! - Tereza incentivou-o.
Marcos pde ver ento o quanto ele estava feio, sujo e em farrapos. Observou Tereza, que estava enfeitada, como sempre.
- Preste ateno, garoto, e aprenda. Observe estes aqui, so diferentes de mim e de voc, porque so encarnados, esto vivos no corpo de carne. Voc e eu somos 
desencarnados, vivos em esprito, de vez que tivemos o corpo morto. Entendeu? No se iluda mais, seno sofrer de novo. Voc no quer voltar s furnas, quer?
- Eu?! No! Por que fui para l?
- Voc deve ter sido aprisionado por algum bando que l o deixou para sugar suas energias.
- Isto  justo?
- Justo  s Deus. Lembrou-se d'Ele l? Aqui se vive como pode.
- Voc no teme ser pega e jogada l nas furnas?
- No, perteno a um bando que se protege mutuamente. No  aconselhvel ficar sozinho.
- Tudo  to estranho! h muitas vantagens, voc se acostuma. Como voc morreu? Morrendo, ora, no gosto de falar nisto.
Marcos estava entre dois senhores que comearam a se inquietar, reclamando de frio e cansao.
Saram, e Marcos j conseguia andar sozinho, sentindo-se mais aliviado. A moa gentilmente guiava-o pela mo, e assim andaram um pouco, para entrar num pequeno bar. 
Novamente Tereza colocou-o perto de um moo que tomava, distrado, um caf. Marcos sentiu-se tomar tambm; o caf fortaleceu-o, esquentando-o um pouco.
- Olhe aquele ali! - Marcos exclamou indo de encontro a um senhor que saboreava um copo de leite, porm, para seu espanto, foi lanado longe, como se levasse um 
forte empurro.
- Este, no! - exclamou Tereza. - No v que  protegido? Terei que ensinar muitas coisas a voc. Agora vamos, vou arrumar-lhe umas roupas.
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-VERA LCIA MARINZECK DE CARVALHO / ANTNIO CARLOS-
Marcos, sentindo-se mais forte, andava com mais facilidade, embora estando todo dolorido. Mas, comparando com o que sentira nas furnas, estava muito bem. Tereza 
levou-o a uma pracinha.
- Marcos, sente-se a, aqui  nosso ponto de encontro. Pertencer  nossa turma. Espere-me aqui, vou arranjar roupas para voc.
Tereza voltou logo e trouxe-lhe umas roupas estranhas, mas ele achou-as preferveis a nada; vestiu-as.
- Ficou brbaro! Voc agora parece com a turma Tereza falou alegre.
A turma de Tereza foi chegando, e a moa o apresentou, pedindo para que ele fizesse parte do grupo. Foi aceito. Assim, Marcos passou a viver com ela e sua turma, 
junto com homens e mulheres briguentos e estranhos. Marcos fazia tudo para se dar bem com todos, ficando quieto, sem provocar ningum. Aprendeu rpido as leis de 
sobrevivncia de um morto-corpo, como se chamavam. Aprendeu a alimentar-se e a embriagar-se para esquecer suas mgoas.
Raramente lembrava de seus familiares. No falou a ningum quem era, nem quem fora, e assim s sabiam que se chamava Marcos. Entendeu que morrera, que seu corpo 
morreu e deveria viver de outra forma. Seguia a turma por onde ia, mas ainda sentia frio, pois parecia que nada o aquecia. Sentia dores de cabea e muita tristeza, 
porm no reclamava, porque sabia, por experincia, que existiam maiores sofrimentos.
Um dia, um dos membros da turma avisou: teriam, no outro dia, uma reunio. Todos se ajeitaram, no beberam, e se arrumaram para ir  afamada reunio de interesse 
comum.
- O Grande Mestre no gosta de indisciplina nas suas reunies, nem de bbados - Tereza explicou a Marcos.
Marcos fez o que os outros fizeram, evitando falar, porque entendeu que ali era melhor falar menos e ouvir mais, como alis deve ser em qualquer lugar. Na hora marcada
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partiram ordeiros, entrando no Umbral, onde caminharam por estranhos caminhos. Marcos tremeu, arrepiou-se assustado, pois no gostava nem de ir, a passeio, ao Umbral. 
De mos dadas, Tereza e ele andaram um bom pedao.
- Feio aqui, hein? - cochichou ao ouvido de Tereza.
- Cale-se! Nada  feio, voc  que no se acostumou.  um lugar como outro qualquer. Se existe,  til.
Marcos no ousou comentar mais nada. Chegaram e se defrontaram com uma construo grande, de cor acinzentada, com alguns enfeites de cores fortes, lembrando um estdio 
de futebol. Estava iluminado por estranhas lanternas, e ali o ar no era to ftido nem to mido.
Havia muitas pessoas nas filas e ordenadamente - fato que Marcos estranhou, pois sua turma era arruaceira. Deveriam temer realmente o chefe do lugar. Entraram por 
um porto e foram fiscalizados por guardas de ambos os lados, e por uma espcie de roleta eletrnica.
-  para evitar intrusos - Tereza explicou-lhe, baixinho. Por dentro, a construo parecia um teatro antigo, tendo
 frente um palco. Sentaram-se e aguardaram em silncio. De repente, tocaram trombetas bem alto e surgiu, no meio do palco enfeitado, uma bizarra figura. Palmas, 
urros, gritos de salva dos presentes que, por minutos, aplaudiram o Grande Mestre.
Aquele estranho homem a quem chamavam de Grande Mestre, vestia-se todo de preto e com uma enorme capa que se arrastava pelo cho. Comeou a falar, discursando com 
voz forte, e foi aplaudido vrias vezes.
- Temos necessidade de tudo fazer para no perder fatia no mercado. Os servos do Cordeiro no descansam, e ns devemos fazer o mesmo. Muitos encarnados, em busca 
da verdade, esto rompendo com o passado culposo e servindo ao bem. So pessoas comuns que interferem em nosso trabalho e a quem precisamos combater com ao eficaz, 
incentivando-os  vaidade, acenando-lhes com qualidades que no possuem, fazendo-os orgulharem-se do que fazem. Se no der certo, incentivem-nos ao contrrio,
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%

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martelando seus crebros, fazendo-os sentir que nada so, que nada fazem certo, que suas aes so nulas e, desse modo, eles as deixam de fazer. No desistam! Se 
no der certo, motivem-nos com a nsia de ganhar mais, faam com que trabalhem mais materialmente, esquecendo o trabalho espiritual, insinuando que isso nada lhes 
rende. E, se falharem, tentem o sexo, to em moda. Sugiram-lhes o prazer da renovao sexual e a modernidade do amor-livre. Assim, companheiros, anularemos os trabalhos 
dos servos do Cordeiro, que tanto nos atrapalham.
O Grande Mestre fez uma pausa, e Marcos observou-o bem, e viu que no era feio, somente desagradvel. Instrudo, falava bem, pronunciando certo. A platia se comportava, 
todos estavam atentos e ordeiros. Guardas se postavam de p entre as bancadas, atentos para alguma eventualidade. Os convidados da reunio se sentavam em cadeiras 
rsticas, mas confortveis.
Marcos observou tambm os assistentes, pessoas esquisitas, desencarnadas, sendo a maioria muito enfeitada e de expresses ms, vestindo-se de vrias formas, at 
 moda antiga. Teve uma certeza: todos respeitavam o Grande Mestre. E ele continuou:
- Temos necessidade urgente de fazer com que encarnados sirvam a ns. Ofeream vantagens, favores fceis, sirvam-os e, depois, eles nos serviro. Necessitamos de 
escravos, por isso deixem que eles pensem ser senhores nossos, enganem-nos, e a desencarnaro e nos serviro, como eternos escravos. No somos como os bobocas do 
outro lado, os que servem por amor (ironizou). Aqui, todos os servios so pagos. Vocs tudo devem fazer para evitar que a massa comum de encarnados procure os trabalhos 
do outro lado, e evitem que busquem ajuda dos servos do Cordeiro, no os deixando ir a templos e orar, e impeam-nos por todos os modos de buscar ajuda do Espiritismo, 
nosso maior inimigo no momento. Devemos incentivar nos encarnados os vcios, a inveja, o egosmo e as idias de vingana. Vingar para o bem da justia!
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MUITOS SO os CHAMADOS
Aps muitas palmas, que o orgulhoso orador nem agradeceu, finalizou:
- Se entre ns existem mdicos, farmacuticos ou enfermeiros, com conhecimentos, que se apresentem para melhor servir  justia que executamos. Agora, devem ficar 
somente as pessoas a que atenderei em particular. Casos que clamam por justia! Vingana!
- Vamos embora! - Tereza disse a Marcos. - Agora  uma reunio s para quem est interessado em vingana!
Marcos sentiu-se aliviado, mas nada expressou. Saram em filas, silenciosos, s conversando ordenadamente do lado de fora e somente para elogiar o Grande Mestre. 
Guardas vigiavam a sada, e a estranha platia foi se dispersando.
Distanciando-se alguns metros do local da reunio, comearam as arruaas dos grupos, surgindo at brigas. Tereza, de mos dadas com Marcos, no parou, seguira, separando-se 
dos outros. Marcos indagou, curioso:
- Quem  este a quem chamam de Grande Mestre?
- O chefe do pedao. O nome j diz, um mestre em maldades e magia.
- Parece instrudo.
- Sim, . Os umbrais no so s para os analfabetos, pois muitos de seus moradores so instrudos, principalmente os chefes, mas tm pouca moral.
- Tereza, por que impedir os encarnados de orar?
- Voc  burro? J pensou se todos orassem com f, com sinceridade? Como iramos nos alimentar? Sugaramos energias de quem? No se lembra do empurro que voc recebeu 
quando se aproximou de um protegido?
- Sim, lembro-me. So eles protegidos s pela orao?
- Uma boa parte. A orao fervorosa, sincera, envolve quem ora, formando uma barreira magntica que nos repele, quando nos aproximamos. Tambm h os encarnados que 
so guardados pelos servos desencarnados do Cordeiro: desses devemos passar longe.
- Por que o Grande Mestre quer mdicos?
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-VERA LCIA MARINZECK DE CARVALHO / ANTNIO CARLOS -
- Ele sempre quer, para servi-lo. Mdicos sabem como causar doenas, isto  til para as vinganas que planejam.
- Vingar do qu? De quem?
- De encarnados. Marcos, voc parece idiota, no lhe fizeram nada de que quisesse desforra?
- No. Pensei que fosse Deus que castigasse.
- Ora, claro que no. Deus deve ser bom demais para isso. So os justiceiros que castigam ou, como dizem os servos do Cordeiro, colhemos da nossa plantao. Mas 
como a colheita pode se atrasar,  mais garantido vingar. O fato, Marcos,  que se sofre sempre pelas ms aes, os maus sofrem muito.
- No parece que o Grande Mestre e seus seguidores sofram.
- Ser que no? Tenho c minhas dvidas. Se for verdade mesmo que um dia teremos que dar conta de nossos atos ao Cordeiro, como ser o acerto deles? Nunca vi nenhum 
deles feliz; demonstram alegria, mas no felicidade.
- Tereza, voc j se vingou de algum ou gostaria de vingar-se?
- Mataram-me. Meu corpo morreu assassinado, pois meu amante, por cime, deu-me uma facada. No precisei me vingar, porque ele est preso. Na penitenciria, ele paga 
caro pelo que fez. L  to horrvel, to cheio de dio!... Detesto ir l, embora alguns gostem, e l vo para vingar-se. Voc j foi l? No quer ir?
- No, obrigado. Tereza, esses infelizes que encontramos pelo caminho, os que esto sofrendo nas furnas, no so socorridos?
- So, os trabalhadores do outro lado, os servos do Cordeiro, ajudam-os, eles esto sempre por aqui.
- O Grande Mestre no acha ruim?
- Claro que sim, mas no podemos com eles, so mais fortes que ns. Mas eles socorrem somente os que clamam ajuda com sinceridade, os que esto aptos a seguir com 
eles.
- Sofri aqui, e no fui mau.
- Sofre tambm, meu caro, por no ter feito o bem.
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MUITOS SO os CHAMADOS
Calaram-se, Marcos pensou: "Sofremos todos ns por aqui. Eu tenho dores incessantes na cabea e sinto um frio, que nada me aquece. Todos do grupo sentem alguma dor. 
Tereza tem um ferimento no peito, da facada que a fez desencarnar, e que est sempre doendo e sangrando; ela procura esconder o ferimento com roupas extravagantes, 
mas sei que a dor a incomoda muito. Podemos farrear, parecer alegres, mas somos todos infelizes".
Chegaram  pracinha, deserta naquela hora da noite, e sentaram-se para esperar a turma. Marcos refletiu sobre tudo o que tinha ouvido e visto. Deu graas por no 
ter falado a ningum que fora mdico, no queria maltratar ningum, seria horrvel ter de prejudicar pessoas, para a vingana de outros.

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DE Volta ao Lar
- J ouviu falar em Vampiros?
Vampiros?! Claro, tive medo deles quando era criana!
- A lenda fala de um sugador de sangue. Sangue  vital aos encarnados como as energias que sugamos. Talvez, pelo tempo, a lenda fosse modificada, trocando-se a palavra 
energia, fluidos vitais, por sangue. Somos vampiros, sugamos energias, e assim roubamos, porque no pedimos.
- Ento, fazemos mal a eles?! Pensei no estar prejudicando ningum.
Marcos ficou aborrecido e, ao saber que prejudicava as pessoas, magoou-se, ficando mais triste ainda. Tereza observou-o e indagou:
- Est preocupado?
- Tereza, todos os que desencarnam, vivem como ns?
- Claro que no. H os puxa-sacos do Cordeiro, que vivem em outro lugar.
- Quem  o "Cordeiro" de que tanto falam?  Cristo, Jesus.
- Ele foi to bom!
-  melhor no comentar isto por aqui.
- Esses outros vivem melhor?
- No sei. Como vou saber?
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MUITOS SO os CHAMADOS
- Tereza, tive uma av muito boa, desencarnou primeiro que eu, mas nunca a vi. Voc tem algum da famlia vivendo do outro modo?
- No, meus parentes esto como eu, com alguns at piores. "Barra" de famlia, por isso quero-os  distncia.
- Tereza, e as pessoas que farreiam conosco, as que bebem, prejudicamo-las?
-  bem verdade que induzimos alguns, mas eles tm sua liberdade, pois fazem porque querem, no os obrigamos. Eles gostam do que fazem.
- Beberiam sem ns? Parariam de se embriagar?
- Alguns, talvez. A maioria gosta de nossa companhia, porque se afinam conosco.
- Tereza, agora que sei que os prejudicamos, no sinto vontade de vampirizar ningum. Isto tudo  para mim to triste... No quero dar uma de vampiro. Voc sabe 
como mudar?
- No sei mas, se quer mudar, talvez encontre resposta em si mesmo. Voc j se analisou? Sabe o que quer?
- Talvez tenha razo. Necessito pensar e analisar a situao. Tereza, voc  uma boa moa!
- Tambm no precisa ofender-me! Deixo-o a ss, volto mais tarde.
Alguns membros do grupo chegaram, e Tereza foi encontrar-se com eles, toda alegre. Marcos ficou s, e sentiu um enorme vazio. "Que tinha construdo em sua vida?" 
indagou-se. "Nada, bem pouco. Se as obras acompanham as pessoas quando estas desencarnam, no tinha feito nada, para ter boa companhia".
Lgrimas correram-lhe pelas faces. Sentiu vontade de orar e ps-se a recitar as oraes de que lembrava. O Grande Mestre queria impedir as pessoas de orar, talvez 
a estivesse o caminho da mudana.
"Que ser dos meus filhos?"
Sentiu saudade dos seus, da famlia. Quando a turma se afastou, Marcos saiu rpido da praa e tomou o rumo de seu lar.
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-VERA LCIA MARINZECK DE CARVALHO / ANTNIO CARLOS -
Ao ver sua casa, lgrimas rolaram-lhe pela face:
"Oh, meu Deus! Que fiz da minha vida? Por que tenho que passar por tudo isso?"
Encostou-se no porto e ficou esperando que algum o abrisse. A oportunidade veio logo: para entregar uma encomenda, um moo tocou a campainha e Madalena veio abri-lo. 
Marcos entrou, rpido.
Sabendo que ningum o veria ou ouviria, entrou em casa, observando-a emocionado, pois ali vivera to feliz! Sua antiga moradia estava um tanto descuidada, necessitando 
de pintura e retoques. Ao escutar vozes na sala, dirigiu-se para l e viu seus pais conversando com Mara.
A emoo de v-los foi enorme, tanto que se ajoelhou a certa distncia deles e ps-se a observ-los com carinho. No sabia dizer se ficara daquela forma minutos 
ou horas, at que seus pais levantaram para despedir-se. Foi ento que Marcos prestou ateno no que falavam.
- Seja feliz, Mara! Acho que agora nos veremos menos ainda, no ? - disse d. Adelaide.
- Por favor, d. Adelaide, no me leve a mal; convid-los para ir  nossa casa poderia ser desagradvel ao Leonel. Levarei as crianas para v-los. Devem compreender-me. 
O que fao  para garantir o futuro deles, pois fiz o que pude para cri-los sozinha. Entretanto... Papai morreu e mame no pode continuar ajudando-me.
- E ns no podemos ajud-la muito; quando nos pediu, pouco pudemos fazer. E com a doena de Dlson...
- Compreendo-os, porque cada um tem seus problemas, mas o pouco que me deram, ajudou-nos muito. Foi um prazer v-los, e  pena que as crianas tenham sado, foram 
a uma festa de aniversrio. At logo, sr. Dlson, tchau, d. Adelaide.
Saram. Marcos, da porta, observou-os: como estavam velhos seus pais, e como parecia cansado seu pai!
Ao perd-los de vista, Marcos entrou novamente na sala, sentou-se ao lado de Mara.
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MUITOS SO os CHAMADOS
"Quem  este Leonel? Quem?"
Marcos indagou com tanta insistncia e firmeza que Mara ps-se a falar sozinha. Tenho pena de meus sogros, esto velhos, mas no posso deixar que se intrometam na 
minha vida. Foi melhor ser franca com eles e pedir que no nos visitem, pois zelo pela minha felicidade. Leonel se sentiria constrangido ao v-los, de vez que tem 
quase da idade do sr. Dlson. Nada deve atrapalhar meu casamento, j to confuso; se no sou esperta, os filhos dele desmanchariam tudo."
"Casar?!" - Marcos indagou. "Voc? Tem coragem? Como pode?"
Mara sentiu as indagaes do ex-marido por intuio, que todos ns temos, uns mais, outros menos. Respondeu no mesmo tom, falando alto, como se estivesse sozinha.
"Ora! A culpa toda foi de Marcos! No me deixou rica e, sim, quase sem o necessrio! Sinto falta do suprfluo, para mim o suprfluo  necessrio! Marcos era um acomodado 
e, se no fosse eu a incentiv-lo, no iria ficar com nada. Depois, quem mandou ele morrer cedo. Tive, eu que nunca trabalhei, de fazer at o servio de casa, de 
ficar s como uma empregada. Minha filha estudando em escola do Estado, e Rodrigo sem poder ir ao Maternal. Culpa dele! do Marcos! No sei por que o troquei pelo 
Romeu. Juventude! Fui idiota! Romeu, sim, soube subir na vida, est rico no Rio de Janeiro. Procurei-o por duas vezes. Orgulhoso, recusou-me. Vingou-se. Pensei que 
me adorava, mas esqueceu-me, ou recusou-me por orgulho."
"Procurou-o?!" - Marcos exclamou, indignado.
Mara continuou, como se fosse empurrada a recordar:
"Quando Marcos estava doente, antes de casarmos, escrevi a ele contando meu erro e pedindo perdo. Romeu respondeu-me rudemente, recusando-me. Agora, viva, fui 
procur-lo no Rio de Janeiro e ele jogou-me na cara que amava Muitas vezes, desencarnados interferem nos pensamentos dos encarnados, chegando mesmo a dialogarem, 
trocando idias, conselhos e at insultos.
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VERA LCIA MARINZECK DE CARVALHO / ANTNIO CARLOS
a esposa, que era feliz e no pensava em separao, nem em tra-la. Humilhao! A americana  horrorosa, certamente no a ama. Recusou-me por vingana. E a culpa 
 de quem? De Marcos! Somente dele! Se ele fosse uma pessoa de carter, no roubaria a noiva de seu amigo e nada disso teria acontecido."
"Mara!" - Marcos falou, raivoso. "No a obriguei a nada, trocou-o por mim, porque quis. Sorte de Romeu voc no ter ficado com ele, pois no iria ele se especializar 
nos Estados Unidos e, tendo-a por esposa, gastadeira e gananciosa como , no conseguiria nem ficar rico. Voc nunca me amou!  incapaz de amar algum. Voc  que 
 culpada! Se no fosse leviana, no namoraria o amigo de seu noivo.  sua culpa, se sofre! Se no fosse seu incentivo, como diz, sua insistncia em ter, em querer, 
faria o que havia prometido, teria feito o bem."
"Basta de falar sozinha! Marcos no iria escutar-me, mesmo. Falta pouco para tudo isso acabar. Adeus, falta de dinheiro! Mudarei para a manso luxuosa de Leonel, 
e como sua legtima esposa. Ainda bem que seus filhos so casados e no nos importunaro, embora exigissem que o casamento fosse com separao de bens. Mas no importa, 
saberei, queridos enteados, tirar muito deste velho que me adora. Comearei reformando esta casa que est em nome das minhas crianas. Depois..."
Saiu rindo da sala. Marcos sentou-se triste e ps-se a pensar:
"Como me enganei, como me deixei enganar. Foi por esta mulher frvola que troquei a doce Rosely. Com ela no teria errado tanto. Como o arrependimento di, pois 
seria diferente se pudesse viver novamente."
Um alvoroo fez com que sasse de sua amargura. Eram as crianas que chegavam.
"Como esto grandes! Lindos! Como cresceram!"
As crianas riam, contando as novidades da festa.
"Quanto tempo estou assim? Quanto tempo vivo como 'alma penada'?"
Correu para a cozinha e olhou o calendrio.
"Meu Deus! Dois anos e meio se passaram desde aquele dia em que sa de casa para o trabalho. Dois anos e meio!"


MUITOS SO os CHAMADOS
Resolveu ficar em sua casa. Queria descobrir o que se passara na sua ausncia. No incio da noite, Mara colocou os filhos no quarto para verem televiso, at que 
tivessem sono e depois se arrumou toda.
"Como  linda!" - Marcos disse, ao v-la arrumada com muito bom gosto.
Mara ficou na sala esperando algum, e logo um homem, desses cuja idade  difcil determinar, entrou, sorrindo, na sala. Marcos, estupefato, viu Mara correr para 
ele e oferecer-lhe os lbios.
- Leonel, que saudade!
- Mara, est linda! Ainda bem que falta pouco para o nosso casamento.
Marcos saiu da sala, de vez que no queria ver mais a cena, sentia cime, tristeza, e seu orgulho o maltratava por ter sido esquecido. Foi para o quarto das crianas.
"So to puras, to lindas! Ser que gostam do padrasto? Ser que ele vai ser bom para elas? E voc, filhinha, como est? Esqueceu do papai?"
Abraou Isabela e chorou lamentando-se. A menina se assustou. Sentindo os fluidos de angstia e de tristeza, comeou a chorar alto e correu para a sala.
- Mame! Mame! Mara pegou a filha no colo. Que foi, Isabela? Que aconteceu?
- No sei, tenho medo. Lembrei-me do papai e chorei. Rodrigo,   assustado,   veio   atrs   da   irm   e  ficou
observando-a. Mara acalentou a filha e Leonel a agradou, e assim ela parou de chorar e ps-se a sorrir. Ele deu balas aos dois, e ficando tudo bem, voltaram ao quarto.
- Estranho, Leonel - Mara disse -, as crianas no falam do pai. Por que esta lembrana agora?
- No se preocupe,  passageiro. So to lindas e to pequenas! Certamente foi algo que ela viu na televiso.
- Deve ser isto!
Marcos saiu da sala e foi sentar-se na cozinha. No se atreveu a ir mais ao quarto dos filhos. 


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a causa do choro de Isabela. Chorou muito e acabou por ficar ali a noite inteira.
No outro dia, teve mais cuidado, e s se aproximou dos filhos, controlando a emoo, a tristeza. No lhes queria causar mal algum.
Marcos entendeu que, para o modo de viver de Mara, amante do luxo e do conforto, o dinheiro que recebia no dava mesmo. E, apesar de seu cime, percebeu que Leonel 
no era mau, mas carinhoso com as crianas, e amava realmente Mara. Os preparativos do casamento ocupavam o tempo todo de sua ex-esposa, e foi com espanto que escutou-a 
dizendo  empregada:
- Madalena, voc ir conosco. Tanto tempo juntas! Ter o melhor quarto de empregada e ganhar bem mais. Ser a governanta da casa, para cuidar de tudo e das crianas. 
J combinei todos os pormenores com o Leonel; Isabela e Rodrigo iro estudar no melhor colgio de So Paulo. Ele faz tudo o que quero, no  timo?
- Est feliz, d. Mara? A senhora ama o sr. Leonel?
- Ora... Amo meus filhos e no quero que nada lhes falte. Amor... sentimento para romnticos! Sou prtica, anseio voltar  boa vida, ao luxo de que sempre gostei.
- Que lhe falta aqui?
- Que falta? Muitas coisas! Que voc entende disto? No foi acostumada ao luxo, como eu.
"Pobre Leonel!" - Marcos disse, ao sair da cozinha e ir em busca da filha.
Estava em sua ex-casa h duas semanas; logo seria celebrado o casamento de Mara, quando se mudariam, e ele no saberia para onde ir depois. Sentia-se bem ao lado 
da filha, to meiga, to pura. No a encontrando no quintal, voltou e, ao passar novamente pela cozinha, escutou a empregada dizendo:
- D. Mara, Isabela no est bem. Est chorona, tem dores, fala sozinha, no se alimenta direito, queixa-se muito, nunca a vi assim!
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MUITOS SO os CHAMADOS
- Tambm notei. vou lev-la ao dr. i-bio. Est plida, no dorme direito, queixa-se de dores de cabea e de frio, porm no tem febre.
Marcos voltou ao quintal, sentou num canto e chorou sentido. Entendeu que era ele a causa dos problemas da filha; mesmo sem querer, ele estava vampirizando suas 
energias, estava trocando as suas com as dela. Ele se sentia bem ao seu lado, e ela, a pequena Isabela, recebia seus fluidos acostumei a roubar energias de encarnados 
e fao isto at sem querer. No quero prejudicar minha filha, no quero."
- soluou: "Oh, Meu Deus! Que fao? Devo ir-me. Ajuda-me! Sei que no mereo ajuda, mas imploro auxlio. Como errei, meu Deus, como errei! Desencarnados que vagam, 
que no receberam orientao, socorro, vampirizam, sugam energias alheias ou as trocam pelas suas. Quando querem, ou simplesmente ao ficarem perto de encarnados, 
principalmente se estes so sensveis, ou mdiuns sem a devida proteo.
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Saiu da ex-casa e foi andando rumo ao apartamento de seus pais. Chegou sem problemas. Foi grande a emoo ao entrar no lar de seus pais, recordando sua infncia 
e juventude. Ficou olhando-os com carinho. Quase s dezoito horas, Solange chegou; formara-se em Psicologia e voltava do trabalho.
"Como est bonita!" - Marcos exclamou. "Simples, como sempre, e irradiando amor e bondade."
- Veio mais cedo, filha? - indagou d. Adelaide, sorrindo para a filha que, carinhosamente, respondeu:
- Hoje  dia dos nossos trabalhos no centro esprita. A senhora quer ir comigo?
- No, estou indisposta; desde a tarde sinto dor de cabea e frio.(1)
- Seria bom se tivssemos uma s religio. Ainda bem que meu noivo  esprita, e assim seguiremos a Doutrina juntos, e nela educaremos nossos filhos.
- Acho que tem razo - concordou d. Adelaide. - S no entendo voc no querer casar na Igreja.
- No seria desrespeito, mame, tomar a bno em uma religio em que no cremos? Roberto e eu j decidimos.
- Filha, hoje estou lembrando tanto de Marcos, estou to saudosa. Como estar ele?
111 Nem todas as indisposies de encarnados tm por causa fluidos de desencarnados.
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MUITOS SO os CHAMADOS
D. Adelaide suspirou, calaram-se, Solange sentiu a presena do irmo e falou com ele pensamento. Marcos escutou-a.
"Marcos, meu irmozinho, acorde para Deus, entregue-se a Ele. Sente-se aqui e me espere, logo irei sair e o convido a acompanhar-me."
Marcos sentou-se e esperou. Logo Solange reapareceu na sala e ele se sentiu atrado para ela; e quando ela saiu, acompanhou-a.
S via a irm: com ela andou sem saber por onde, at que entraram num local que                                                                         o agradou. 
Era um salo, com tudo muito simples, mobiliado com cadeiras e, em plano mais elevado, uma mesa com toalha branca e um vaso com lindas flores, que exalavam suave 
perfume e que lhe pareceram luminosas. Somente um quadro ornamentava a parede; era Jesus orando no Jardim das Oliveiras, e que o fascinou.
"At Jesus, quando por aqui andou, orava" - Marcos pensou. "Ele parece to tranqilo, com tanta paz e f. Ah! Jesus! Ensina-me a orar. Tenho necessidade de paz. 
Muita paz!"
- Boa-noite!
- Boa-noite!
Marcos respondeu a um senhor desencarnado de agradvel aspecto e sorridente que lhe pediu o favor de ficar na fila que organizava.
- Onde estou? Que lugar  este? - Marcos se aventurou a perguntar.
- Est, meu filho, numa casa de orao, num centro esprita.
"Graas a Deus" - pensou ele - "o Espiritismo novamente me salvar. Se o Grande Mestre o teme,  aqui que acharei ajuda."
Viu Solange sentar em volta da mesa e, com ela, mais onze encarnados. Outras pessoas se sentaram nas cadeiras restantes: todos lhe pareceram pensativos e a orar. 
Muitos desencarnados iguais a ele, e outros em estado pior, uns inconscientes, outros gemendo, aguardavam na fila.
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Um senhor encarnado leu um texto do Evangelho, com voz firme, fazendo com que todos os desencarnados se calassem, mesmo os que gemiam. Em seguida, explicou o texto 
lido. Uma senhora desencarnada, irradiando uma luz suave e de deslumbrante beleza, colocou a mo sobre a cabea do orador encarnado. Marcos pensou:
"Deve ser uma das que vivem do 'outro modo', basta olh-la para saber que  feliz. Deve ser uma das servas do Senhor."
Todos prestaram ateno na lio evanglica. Ensinaram naquela noite a necessidade de perdoar todas as ofensas e tambm de reconhecer nossas falhas e pedir perdo 
a quem ofendemos. E que orar com dio e rancor no corao no  agradvel a Deus, completando com: "Felizes os que conseguem perdoar com sinceridade, porque sero 
perdoados e tero paz."
Um senhor encarnado fez uma orao pedindo a Deus proteo para os trabalhos que iam se realizar, e todos juntos oraram o Pai-Nosso. Marcos se emocionou e chorou, 
no conseguindo orar, pois sentia remorso e vontade de mudar de vida para melhor. Foi atrado para a irm e se aproximou dela, ficando bem perto. Solange comeou 
a chorar tambm.
Bondosamente, um senhor lhe perguntou o que estava acontecendo.
Marcos falou:
- Eu sofro... tenho frio... estou triste...
Surpresa a sua: Solange repetia palavra por palavra o que ele dizia. Marcos, perplexo, parou de falar, entretanto um desencarnado, o que havia organizado a fila, 
orientou-o:
- Continue, filho, fale de suas necessidades. Marcos lembrou ento que, quando encarnado, vira um
trabalho de incorporao, de orientao, e isso quando estivera pela primeira vez no Santurio Espiritual Ramatis.
O desencarnado que lhe dirigiu a palavra, continuou:
- Calma, procure ficar tranqilo, receber ajuda.
- Quero mudar! - Marcos exclamou emocionado, e Solange, falando em voz alta, repetia o que ele dizia. - Quero viver de outra maneira. Sofro muito, tenho dores de 
cabea e sinto frio.
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MUITOS SO os CHAMADOS
Marcos viu ao seu lado dois espritos radiosos, que colocaram as mos sobre ele, aplicando-lhe passes. Comeou a sentir um agradvel calor e a dor foi desaparecendo. 
Suspirou, aliviado.
- Obrigado, meu Deus!
- Graas ao Pai! - continuou o encarnado. - Sente-se melhor? O irmo sabe que desencarnou?
- Sei que meu corpo morreu. Sofro vagando, mas no quero prejudicar ningum. Quando chego perto das pessoas, estas se sentem mal e sofro com isso.
-  pelos seus fluidos. Agora, tudo ir mudar.
- Para onde irei? No quero vagar sem destino, no tenho para onde ir. Ajudem-me.
- Voc ir para um lugar que lhe  prprio, onde aprender muito, e logo estar ajudando as pessoas e no mais prejudicando-as. Quer ir?
- Sim, quero. Agradeo-lhes.
Nisto, Marcos olhou  sua frente e viu d. Carmem, sua av, sorrindo-lhe bondosamente e abrindo os braos para ele:
- Vov, no mereo! Meu Deus! Perdoe-me! Vov, v... Marcos se sentiu feliz como h muito no conseguia, e
assim deixou-se abraar pela av que, carinhosamente, alisava-lhe os cabelos. Marcos ento observou-se, viu que no estava mais sujo, porm limpo, e que a roupa 
fora-lhe trocada. Um sono suave foi obrigando-o a fechar as plpebras. Como criana, adormeceu nos braos de sua av.
Naquela sesso de caridade, vrios necessitados foram ajudados e encaminhados. Ao trmino, uma senhora fez a orao de agradecimentos e a Prece de Critas. Com a 
luz acesa, os mdiuns comentaram o trabalho da noite, e Solange disse, emocionada:
- Obrigado, Jesus, por ter atendido minhas preces, estou to feliz! Marcos, meu irmo carnal, foi socorrido e encaminhado para onde ir aprender a servir, no plano 
espiritual.
O grupo, contente, se desfez.
Marcos acordou refeito, sentindo-se muito bem, eis que um agradvel calor o envolvia. Remexeu-se no leito e recordou do frio que, por anos, o maltratara, e estremeceu.
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VERA LCIA MARINZECK DE CARVALHO / ANTNIO CARLOS
"No quero recordar tudo o que passei. Onde ser que estou?"
Olhou para todos os lados, mas no reconhecia o local.
"Devo estar na enfermaria de um hospital" - Marcos falou baixinho. "Ser que sonhei tudo aquilo? No, acho que no. Devo ter morrido mesmo. Estou bem agora, nenhuma 
dor incomoda-me."
- Fala sozinho, amigo? - indagou um senhor do leito ao lado. - Sou Fernando, e voc?
- Marcos. Acordei e no sei onde estou. Sabe onde estamos?
- Claro. No Hospital da Luz.
- No espao?
- Sim, sabe que desencarnamos?
- Ento, tudo  verdade! Sei, mas me iludi por momentos. Acho tudo to estranho! Como a morte  engraada!
- No, amigo, a morte no  engraada. Ns  que fomos imprudentes. A morte do corpo  natural e para todos.
Nisto entrou um enfermeiro. i
- Bom-dia! - disse ele alegre. > -
- Bom-dia! - responderam todos.        :: '
Foi a que Marcos viu que havia uns quarenta leitos e todos estavam ocupados por homens parecendo convalescentes. O enfermeiro parou  sua frente e sorriu:
- Que bom v-lo bem! Avisarei Carmem que j despertou.
- Dormi muito? - indaguei.
- Por uns quinze dias.
Marcos se sentou no leito, respirou fundo e, lentamente, sentia-se muito bem. Estava com roupas claras e limpas, seu corpo asseado, com barba feita e cabelos cortados. 
Tudo lhe parecia agradvel, muito agradvel. Observou o enfermeiro, que tratava de todos, com dedicao e ateno, cuidando dos internos daquela enfermaria.
- Hora de visitas! - O enfermeiro falou.
Marcos, ansioso, notou muitas pessoas entrarem e, ao ver sua av entre elas sorrindo, chorou de emoo, e ela o abraou fortemente.
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MUITOS SO os CHAMADOS
- Que encontro feliz! Como lhe agradeo. Sei que no merecia nada disto, nem o seu perdo! No falemos disto. Como se sente?
- Sinto-me bem. Mas deixe-me falar, vov. A senhora foi to boa, preocupava-se com todos. Quando tive cncer, foi pelos seus cuidados que consegui sarar. Fui ingrato! 
Quando esteve doente, nada fiz pela senhora: nem fui cuidar, nem visi-tar. E, mesmo assim, quando desencarnou, a senhora tentou ajudar-me. Lembro-me dos meus sonhos, 
quando fazia-me recordar das responsabilidades de que fugi. No seria a senhora que eu escutava vagamente, orientando-me enquanto vagava?
- Marcos, estive, sempre que possvel, ao seu lado. Voc no podia ver-me por vibrarmos diferentemente e por no querer isso. Quando revoltado, pouco pude fazer, 
porm minhas oraes acompanharam-no e como fiquei feliz por v-lo arrependido e pedir misericrdia! Nada tenho que perdoar e, por ter compreendido sua situao, 
nunca guardei mgoas. Quanto  doena, era necessrio que eu passasse por tudo aquilo. No reclamei, mesmo porque o sofrimento do corpo lavou-me o esprito to necessitado 
daquela prova. Desencarnei e aqui estou, to feliz!
- Vov, a senhora se perturbou ao desencarnar?
- No, Marcos, minha desencarnao foi tranqila e suave, pois adormeci para acordar aqui, entre amigos.
- E eu perturbei-me tanto!
- Meu neto, a morte do corpo no  igual para todos, de vez que cada um tem a desencarnao que fez por merecer. Como tambm o estado de coma no  sentido, igualmente. 
A cada um  dado o que necessita, ou colhe-se o que quando encarnado se plantou!
- Vov, poderei ser til?
- O esprito  ocioso, se quiser. Em qualquer lugar em que estejamos, somos chamados  responsabilidade, a sermos teis.
- Poderei estar sempre com a senhora?
- Tenho meus afazeres, mas estarei com voc at que, ambientado, possa servir.
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O horrio de visitas acabou, Marcos pensou por muito tempo na conversa que teve com sua av. Depois, um senhor simptico e alegre, convalescente como ele, se aproximou 
e, aps se apresentar, indagou:
- Marcos, gosta daqui?
- Sim, tudo me parece encantador. l
- E . Este Posto de Socorro  lindo e cheio de paz. Mas estou doido para voltar ao meu lar.
- Qu?!
- Aqui tudo  lindo, mas no  como meu lar. Sinto falta de meus familiares, pois amo-os tanto! Ter vindo para c foi como se tivesse feito uma viagem. Acho tudo 
lindo, gosto, mas quero voltar para casa.
- Celso, voc desencarnou, no tem o corpo de carne e, se voltar, no ser a mesma coisa!
- Sei disto tudo, mas meus familiares me amam, esto me chamando, de vez que sofrem com o meu afastamento. Eles sabero receber-me.
- Celso, voc teve algum que desencarnou antes de voc, a quem muito amou?
- Sim, meu pai.
- Queria, quando voc estava encarnado, v-lo?
- No!
- Poder acontecer o mesmo com voc, pois seus familiares podem no querer nem v-lo!
- Ora, no seja desmancha-prazeres!
Saiu de perto de Marcos, indo para o outro lado.
"Ah! Muitas vezes necessitamos sofrer, como sofri, para dar valor ao socorro."
O enfermeiro escutou a conversa e, ao ver Marcos preocupado, disse-lhe:
- No deixe que as preocupaes o aborream.
- Celso disse-me que quer voltar ao lar, conseguir?
- Sim, se ele quiser, voltar. No Posto de Socorro ficam os que querem.
- Sair sem permisso?
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MUITOS SO os CHAMADOS
- Quando estamos aptos a visitar nossos entes queridos, sem que os prejudiquemos, temos permisso. Celso quer voltar, no para visit-los, mas para ficar com eles. 
Se desejar, realmente, ir, embora tenha recebido orientao para no faz-lo.
- Ele os perturbar?
- Certamente, e logo se desiludir, ao ver que os seus no o vem, no o ouvem e nem desejam sua presena, no estado em que est. Por isso, perturbar e prejudicar 
seus familiares.
Marcos se recuperou rpido e foi, com sua av, para a Colnia, deixando o Posto de Socorro agradecido. Encantou-se com o lugar, pois tudo lhe era maravilhoso: os 
prdios, os jardins, a biblioteca. Iria morar com sua av e com os amigos dela, que o receberam como a um filho.
Em poucos dias se ambientou naquela maravilhosa forma de viver.
- Marcos - esclareceu d. Carmem -, a vida aqui, como viu, no  para ociosos, porque todos se ocupam de alguma obrigao.
- Pensava falar-lhe sobre isto. Quero tambm trabalhar. Que devo fazer?
D. Carmem apresentou-o a uma pessoa encarregada de introduzir os recm-chegados  vida ativa na Colnia. Tratado com imensa bondade por Eduardo, um senhor tranqilo 
e risonho, j estava ele, no outro dia, trabalhando e estudando.
Seu tempo era repartido, ora como simples enfermeiro, nas dependncias do hospital, ora estudando, numa das escolas da Colnia, onde aprendia a Moral Evanglica, 
tendo por mestre o instrutor Lus. Nas horas de folga, conversava muito com sua av, fazia muitas amizades, assistia a palestras e lia muito.
O tempo passou. 101 Aprendendo

Marcos estudava com prazer, mas uma questo o incomodava, at que indagou ao mestre:
- Lus, se tivesse feito o que prometi, estaria encarnado? Estando com cncer, pedi a cura a Deus, e propus ser bom, fazer o bem; no o fiz, e nessa poca desencarnei 
por um derrame cerebral. Desencarnaria, se tivesse feito o bem?
- Caro Marcos, a razo de ser do corpo fsico  proporcionar  alma posio favorvel para que aspire ao melhor. Mas muitos de ns vemos nas necessidades fsicas 
no o motivo de melhoria, mas, sim, um castigo. Uma doena , s vezes, um meio para que procuremos crescer, aprender, voltar a Deus. Se o corpo no est dando condies, 
motivos para que cresamos, no h razo para que permaneamos encarnados. Muitos transviados permanecem no corpo fsico, apesar de no se aperceberem desta verdade. 
Mas, para aqueles que esto mais propensos acordar, h preocupao de seus protetores espirituais, no sentido de que aproveitem a encarnao e que ela lhes seja 
til. Entretanto cada caso, Marcos,  um caso. Sim, talvez voc estivesse encarnado. Sua cura proporcionou-lhe o estmulo para que se aperfeioasse, e lhe deu oportunidade 
de pagar dvidas, simplesmente trabalhando para o bem e realizando o progresso espiritual. Voc tinha um carma negativo, que ia se quitar com a doena. Foi ento 
lhe dada, pela cura, a oportunidade de quitar esse carma trabalhando, deixando de ser um peso  sociedade, e passar a ser um plo positivo aos seus irmos. Por no 
aproveitar a oportunidade, sua dvida teve que ser quitada com o sofrimento.
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MUITOS SO os CHAMADOS
Para aqueles - continuou Lus - que tm o mundo fsico s como fonte de prazer, a desencarnao  um castigo terrvel. No pagando seu carma pela oportunidade do 
trabalho, resta-lhes a dor da desencarnao, quando a dvida lhes  cobrada. Para as pessoas santificadas, estar no mundo fsico ou fora no faz diferena, pois 
construram o Reino de Deus dentro de si, e a desencarnao lhes representa somente uma outra forma de viver. Para elas, a morte fsica  uma felicidade.
- Uma libertao?
- Sim, entendendo que a libertao no  a perda do corpo fsico mas, sim, dos vcios. Se no nos libertarmos de nossos vcios, continuaremos escravos, tanto encarnados 
como desencarnados. Se seguirmos os ensinamentos de Jesus, se colocarmos o Reino de Deus em ns, seremos felizes, libertos, onde quer que estejamos.
- Ento, eu poderia estar encarnado?
- Para voc, que amava a vida encarnada, foi um castigo abandon-la. Se tivesse feito o bem, sendo til, quitaria seu carma, proporcionando seu crescimento, e permaneceria 
encarnado, como prmio. Porque, perante a vida, tanto faz ser til aqui desencarnado, como encarnado.
- Mas fazer o bem encarnado  mais difcil! - exclamou Marcos.
- Sim, , mas tambm  mais compensador. Marcos pensou: "Aqui  mais fcil, porque como
desencarnados sabemos com certeza da continuao da vida aps a morte do corpo; e, como encarnados, acreditamos em tantas teorias... No corpo carnal, tem que se 
lutar pela sobrevivncia, h o trabalho pelo ganho material, existe a famlia..."
- E muitas iluses falsas - Lus concluiu, sorrindo. Marcos entendeu que seu mestre lera seus pensamentos e completou: - vou, como convidado, assistir hoje a noite 
a um trabalho num centro esprita. No quer vir comigo? Ver, Marcos, que muitos encarnados contrabalanam todas as dificuldades que enumerou, com o trabalho espiritual.
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-VERA LCIA MARINZECK DE CARVALHO / ANTNIO CARLOS sim. Marcos esperou ansioso a hora de irem. Com Lus, volitou pelo espao at a cidade. O centro esprita era 
simples e acolhedor. Isso chamou a ateno de Marcos, que indagou a Lus:
- Todos os centros espritas que conheo so simples, por qu?
- Os encarnados que planejam estes centros espritas, quase sempre conhecem locais de oraes no Espao. A simplicidade  uma beleza, e lugares de orao no precisam 
ser luxuosos.
Foram acomodados, e Marcos prestou ateno em tudo.
- Marcos - disse-lhe Lus -, observe os trabalhadores deste local: h a equipe desencarnada e a equipe encarnada, formada de pessoas comuns com seus problemas e 
dificuldades, e que tm famlia e trabalho.
- Por trabalhar aqui, as dificuldades da vida dos encarnados no lhes so facilitadas?
- No, Marcos. No podem os desencarnados fazer as lies para os encarnados. Nada  feito com sacrifcio, pois eles tm horas e dias certos para o trabalho espiritual. 
O que pode ocorrer,  que pessoas que fazem o bem, para si o fazem. A compreenso, o aprendizado que d a Doutrina Esprita aos seus seguidores faz com que entendam 
o significado da Vida, porque ficam sabendo que tudo na Terra  passageiro e, assim, para tudo h explicao. Se o perodo como encarnado  mais difcil, tambm 
 mais proveitoso.
Um senhor encarnado, risonho, simptico, sentado  mesa, orava em silncio. Lus esclareceu:
-  Jos Carlos Braghini, o orientador encarnado, da casa.
Uma senhora se aproximou dele e indagou:
- Z Carlos, sofremos somente pelo carma negativo?
- Muitos de ns no o sabemos, e outros tantos sabem, mas se esquecem de que a Essncia Divina se faz presente em todas as criaturas. Adquirimos carma negativo, 
quando agredimos a essas criaturas, prejudicando o veculo dessa Essncia Divina, e impedindo a sua manifestao
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MUITOS SO os CHAMADOS
harmnica. Da mesma forma adquirimos dbitos, tambm, por desleixo ou preguia. Nada fazer por nossa melhoria  impedir que a Essncia Divina encontre um veculo 
propcio em ns. O servo mau e preguioso da Parbola dos Talentos no destruiu o dinheiro do Senhor, e errou por no multiplic-lo, tanto como aquele que o esbanjou. 
Os ociosos tambm falham, por no aproveitarem as oportunidades que o Pai Amoroso tanto lhes d para crescerem. Quando trabalhamos, multiplicamos os talentos. O 
sofrimento, s vezes, consegue chamar-nos  responsabilidade.
- Que resposta interessante! - Marcos comentou.
- Sofre-se tambm pelo que deixamos de fazer, pelo bem que poderamos praticar e no o fizemos. Foi o que ocorreu comigo. Lus, este encarnado, Jos Carlos, foi 
curado de alguma doena grave, ou foi algum de sua famlia que o fez seguir o Espiritismo?
- No, ele no foi curado, nem ningum de sua famlia. Atendeu, simplesmente, o chamado do amor. Possua tudo o que a maioria dos encarnados almeja: esposa dedicada, 
filhos, bens materiais. Sentia-se insatisfeito, desiludido com os posses do mundo e entendeu que elas no o levariam a lugar nenhum, pois possua mas continuava 
angustiado. Sentiu a necessidade de procurar algo que lhe desse paz interior. No sendo ocioso, procurou, estudou, e ainda muito estuda, faz o bem por amor. Est 
multiplicando pelo trabalho os talentos que o Pai lhe confiou.
Neste instante, Jos Carlos comeou a falar:
- O sol nasce todos os dias irradiando a Natureza, e os seres irracionais cantam a beleza, a glria a Deus. A Natureza  sinfonia, beleza, luz e vida. Parece que 
a maioria das pessoas no comunga com essa harmonia. So as mal-humoradas, insatisfeitas e revoltadas. Essa revolta, insatisfao de desejos no realizados, vai 
se acumulando, at que um dia a dor as reajusta s leis de Deus. Quanto maior a insatisfao, o egosmo, a vaidade e a luxria em que estes indivduos tm vivido, 
maior ser a sua dor. E o sofrimento chega, s vezes, por doenas. O homem que poderia viver no Paraso, constri
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VERA LCIA MARINZECK DE CARVALHO / ANTNIO CARLOS
para si um vale de lgrimas. Os homens doentes, sofrendo dores iguais, dividem-se em dois grupos. O primeiro grupo revolta-se contra Deus e indaga: "Que mal fiz 
a Deus para sofrer assim? Por que meu corpo est em chagas?" O outro grupo, parando para pensar, mais amadurecido, volta-se ao seu passado e entende que teve muito 
e no deu valor, pois quis somente ser servido e no se props a servir.
Esses dois grupos, doentes, unidos em sofrimento, so como os dez leprosos da passagem evanglica. Tiveram eles notcia de que Jesus de Nazar estava naquela regio 
e que poderia cur-los. Correram, ento, todos eles a pedir a cura e o socorro a Jesus. O Mestre, lendo os pensamentos de cada um, sem julgar ningum, viu em todos 
a presena de Deus e que eles eram seus irmos. Em nome da Bondade Infinita, mandou-os que fossem at a autoridade da poca e, no caminho, ficaram curados.
Continuava Jos Carlos sua exposio:
- O primeiro grupo, formado por aqueles que s pensavam em si, partiu em busca dos prazeres que lhe foram proibidos no tempo de doena. Queriam eles descontar o 
tempo perdido e se esqueceram daquele que, em nome do Ser Supremo, da Bondade Divina, lhes havia dado nova oportunidade. No seu egosmo,  achavam que Ele no fizera 
mais que sua obrigao, e que eles tinham o merecimento de receber a cura, porque haviam sofrido muito sem dever nada e que agora, curados, deveriam voltar a viver 
para os prazeres.
O orientador prosseguia:
- O segundo grupo, representado por um indivduo que, como   os   dez   leprosos,   fora   curado,   indo   tambm    autoridade, e que voltou. Esprito mais amadurecido, 
brotou em seu corao o amor. O primeiro impulso desse amor foi a gratido. Voltou, indo ao encontro daquele que o curou. Ao agradecer a Jesus de Nazar, ele o fez 
quele que O enviou, a Deus, que lhe concedia nova oportunidade de poder servir, de ser til. Demonstrando seu reconhecimento para com Aquele que tudo d, ele j 
no era o mesmo homem de antes. Agora, s queria amar e ser grato a todos os que o ajudaram; os familiares, queria
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MUITOS SO os CHAMADOS
envolv-los com carinho e afeio. Queria ajudar, porque em seu sofrimento viu que todos so iguais. No se importava mais consigo, queria que a humanidade fosse 
feliz, desejava fazer feliz os que estavam  sua volta.
Todos ouviram em silncio, e ele continuou:
-  a atitude perante o sofrimento que vai redimir o indivduo. O episdio dos dez leprosos repete-se dia a dia. Quantos so curados pela Bondade Infinita e quantos 
grupos se repartem? Poucos so os que despertam pela cura do corpo e se curam tambm pelo esprito. Hoje, mais que nunca, temos a oportunidade de renascer para a 
verdadeira vida. E morrer para o egosmo, desejos e gozos.  preciso no mais querer ser servido e aprender a servir.  necessrio amar a Deus e dedicarmo-nos ao 
prximo, tratando-o como irmo. No sejamos ingratos, amemos a Deus que est pelos sculos, milnios, nos sustentando. Voltemos para agradecer pelo muito que recebemos.
Oraram, e Marcos no mais conseguia fixar a ateno no que se falava, pois voltava no tempo, e entendeu, ento, que ele pertencia ao primeiro grupo, fora curado 
em nome de Jesus e partiu para desfrutar dos prazeres materiais. Foi grato de forma externa, foi curado em seu corpo, porm no se interessou em curar seu esprito.
As luzes se acenderam, acabara o trabalho. Marcos voltou sua ateno para o que ocorria. Viu uma moa desencarnada de muita beleza, loura, de olhos azuis brilhantes, 
a sorrir e a cumprimentar os trabalhadores desencarnados do centro esprita, e estes a cercavam de mimos e carinhos.
-  filha do sr. Jos Carlos - disse uma senhora que estava perto de Marcos.
O aprendiz se espantou, indagou rpido a Lus:
- Lus, esta moa  filha do sr. Jos Carlos?
- Sim, , chama-se Patrcia.
- Filha na outra existncia, presumo.
- No,  desta encarnao, mesmo.
Nesse instante, Patrcia se aproximou de uma senhora encarnada, simptica e beijou-a. A encarnada era sua me, que
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-VERA LCIA MAHINZECK DE CARVALHO / ANTNIO CARLOS-
a sentiu em esprito e sorriu. Os encarnados conversavam trocando comentrios doutrinrios, e Patrcia se acercou carinhosamente do pai e tambm o beijou. Marcos 
comentou:
- No entendo como um casal que tem uma filha to maravilhosa, desencarnada na flor da idade, no se revolta.
- Marcos, se para alguns desencarnar  castigo, porque so privados dos prazeres materiais, para outros nada mais  que uma continuao feliz da existncia. Que 
voc v aqui? Eles no esto separados, porque o amor e o carinho os unem. No h razo para revolta, aos que compreendem. Aqueles que crem, j esto consolados. 
Por que tanto espanto? No sabia voc que o mdium que foi instrumento de sua cura, o Waldemar, teve um filho que era doente e que desencarnou adolescente?
Marcos no ousou comentar mais nada, muito tinha que meditar no que viu e ouviu. Voltaram  Colnia.
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Marcos  estudava e trabalhava com afinco e os dias      para ele passavam rpidos e agradveis, pois entusiasmava-se com suas novas aspiraes.
- Marcos! - d. Carmem veio ao seu encontro. - Venho trazer boa notcia. Voc teve permisso para ver seus entes queridos. Eu o acompanharei, amanh  tarde, numa 
visita de doze horas.
- Oh! Vov, que bom!
Marcos se alegrou, agora seria diferente, porque poderia abraar seus entes queridos, sem prejudic-los. Ansiava por v-los.
Na hora marcada, volitou com sua av e desceram num bem cuidado jardim que rodeava uma bonita piscina. Sentada numa cadeira estava Mara, pensativa e triste. Marcos 
se emocionou ao ver sua ex-esposa linda e muito elegante.
- Aqui, Marcos,  a nova residncia de seus filhos explicou d. Carmem.
- Bonita casa. Eles esto felizes?
- Sim.
- Por que estar Mara to pensativa? Parece triste.
- Vamos ver o que a aflige.
D. Carmem colocou a mo na testa de Mara, Marcos imitou-a, e pde, assim, auscultar os pensamentos da bela moa.
"No devo estar saudosa do passado. Como fui feliz no interior com meus pais, e que tempo gostoso o da minha juventude, sempre mimada e sem problemas! Meu casamento: 
tudo to lindo, meu vestido, Marcos... tenho saudade de voc. O destino separou-nos to cedo. Se ele estivesse aqui, seria tudo diferente. Estaramos construindo 
nossa casa, to
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VERA LCIA MARINZECK DE CARVALHO / ANTNIO CARLOS
bela como esta e no seria como priso. Marcos no me sufocaria; com ele... a vida era bela, como passeava ento, que bom tempo!"
"E Leonel?" - Marcos indagou mentalmente.
"Leonel!... Talvez seja velho para mim. Aqui tenho tudo, mas nem posso mostrar isso aos meus amigos. Que adianta possuir tantas roupas, se no saio. Ele  bom,  
como um pai para meus filhos, nada nos falta, mas sou infeliz."
- Coitada... - Marcos disse  av e se afastou de Mara.
- Sente-se como um pssaro na gaiola dourada. Paga caro o preo de seu egosmo, porque no se casou por amor e, sim, por interesse. Queria conforto e tem o que deseja, 
porm tudo isto no a fez feliz.
- Marcos - falou d. Carmem -, todas as pessoas que colocam a felicidade nas coisas perecveis, podem iludir-se, todavia no so felizes. Mara se esquece de ser grata 
e de amar. O segundo esposo  um homem bom, honesto, caseiro. Sente cime doentio da jovem esposa, fazendo-a sentir-se sufocada, contudo foi ela quem tudo fez para 
conquist-lo, para que ele a amasse, a ponto de se indispor com seus filhos para casar com ela. Mara no fez questo de am-lo ou mesmo quer-lo bem, mas agora o 
convvio  difcil. No trabalha, no estuda, no faz nada de til, e quem perde o tempo na ociosidade, este lhe parece pesado e lento. Mara  infeliz, meu neto, 
por desejar facilidades e por ser egosta, pois s pensa em si. Se prestasse ateno aos que esto  sua volta, veria como ocupar seu vazio tempo, fazendo o bem. 
Venha, vamos orar por ela.
Carinhosamente, d. Carmem deu-lhe um passe, Mara suspirou relaxando-se, e Marcos se aproximou da ex-esposa, beijando-lhe a testa; ela, ento, se levantou, dizendo 
em voz alta:
"vou ler o Evangelho que ganhei na Igreja. Acho que  uma boa idia."
Entrou em casa mais animada.
- Leonel  presbiteriano, querido neto, e Mara o tem acompanhado aos domingos  Igreja. Vai l somente para sair de casa, porm  obrigada a ouvir os sermes, as 
leituras bblicas, e isso  sempre bom. Vamos ver as crianas.
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MUITOS SO os CHAMADOS
Eles estavam brincando com vrias coleguinhas, no parquinho ao lado da piscina.
"Como esto lindas!" - Marcos se emocionou e no conseguiu segurar as lgrimas. Esforou-se para se acalmar e, quando se sentiu seguro, foi at elas, abraou-as 
e beijou-as.
- Esto bem, no , vov? Esto fortes, alegres e sadias. Quando encarnado no tive tempo para contempl-las, brincar com elas, sinto isto agora. Como gostaria de 
estar sempre com elas!
Sentou-se perto dos filhos e ficou admirando-os, escutando seus risos e conversas. As outras crianas foram embora, enquanto Isabela e Rodrigo ficaram a brincar 
na areia. Auxiliado pela av, Marcos as observou e viu que estavam bem, felizes, porm no guardavam nenhuma lembrana do pai.
- Venham, crianas, hora do banho!
Correram alegres para Madalena. Marcos no as seguiu, e falou  av:
- No se recordam de mim! No importa, no devo ser egosta, porm quero-as bem e no quero v-las sofrer. Como iriam lembrar-se de mim? Quando desencarnei eram 
eles to pequenos! Padeceria se os visse sofrer por mim.
- Orgulho-me de voc, pois amadureceu. Querer que sofram por ns  muito egosmo. Quando nossos entes queridos esto bem,  motivo de alegria para ns. Um dia sabero 
que tiveram um pai amoroso.
Em seguida, foram ao apartamento dos pais de Marcos. Permanecia tudo como sempre. O sr. Dlson estava bem doente, e isto deixou o visitante consternado por um instante. 
Lembrando das recomendaes que recebera, tratou de afastar a tristeza, de vez no queria transmitir nada de ruim a eles. Sabia ele que a tristeza transmitiria fluidos 
pesados e angustiantes.
Ao chegar perto de sua me, esta o sentiu em esprito, ficando com muita saudade, e se ps a recordar passagens alegres da infncia e da mocidade do filho. Marcos 
sentiu-se bem com seus pais, de vez que entendeu no ter sido bom filho, mas os amava muito.
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-VERA LCIA MARINZECK DE CARVALHO / ANTNIO CARLOS-
Querendo ver todos, foram  casa de Trcio. O lar do irmo era simples, mas confortvel. Rosely preparava o jantar. Continuava meiga e alegre.
- Meu irmo  feliz! - Marcos exclamou. Passaram rpido pela casa de Gabriela, e viu que os
sobrinhos j estavam moos, todos bem. Foram visitar Solange que se casara e estava muito feliz. Marcos gostou do cunhado, e sentiu a casa agradvel alm de muito 
bonita. Abraou a irm.
"Solange, agradeo-lhe. Devo a voc e ao seu grupo por estar bem. Obrigado, irmzinha, continue sempre ajudando os que sofrem. S Deus e os socorridos podem avaliar 
o trabalho que fazem. Continue... A Doutrina Esprita mostra-nos o verdadeiro caminho a ser percorrido. Para aqueles que vivem e praticam o Espiritismo, a desencarnao 
 bem mais fcil. Obrigado."
Solange sorriu, sentiu a presena tranqila do irmo, respondeu tambm em pensamento:
"Marcos,  voc? Est bem! Agradea somente a Deus e sirva tambm, ajudando a outros que sofrem, em nome dele.
Orou com sinceridade, e Marcos, emocionado, viu raios coloridos caindo sobre eles.
- Como  linda a orao sincera! Se soubessem disso, os encarnados orariam mais.
- Sabe, todas as religies ensinam e aconselham a orar com f. Poucos fazem assim. Solange  privilegiada, pois ora como lhe ensinaram.
- Solange  mdium, vov, e isto  maravilhoso. Sentiu-me e at respondeu-me. Ter mediunidade constitui uma graa!
- Nem todos os que tm mediunidade pensam assim, porque para muitos  um estorvo, um incmodo, uma perturbao e, se pudessem, se livrariam dela.
- No lhe sabem dar valor!
-  verdade, em vez de fazerem dessa faculdade um instrumento   de   trabaiho   para   multiplicar   os   talentos, enterram-na, deixando-a sem uso, e ser com tristeza 
que tero de devolver o talento, sem multiplic-lo.
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MUITOS SO os CHAMADOS
- Vov, tenho orado muito por Tereza, uma amiga e companheira de infortnio. Gostaria de ir v-la e ajud-la, se possvel. Ser que me seria permitido?
- Pensei que gostaria de passar o resto do tempo que temos, na companhia de seus filhos.
- Eles esto bem, graas a Deus. Mas Tereza est a vagar, h tanto tempo. Ela ajudou-me  sua maneira, e ainda deve ter um ferimento no peito, e eu gostaria de cur-la. 
Seria possvel?
D. Carmem sorriu contente.
- Que bom v-lo a preocupar-se com os outros e querendo ajudar. Vamos at ela, e ajudarei voc a socorr-la. Sabe onde ach-la?
Volitando, foram  praa onde o grupo costumava reunir-se e avistaram Tereza no meio do bando. Eles no os viram.
- No podem ver-nos, por vibrarmos diferentemente d. Carmem explicou ao neto.
- Gostaria de falar com ela, mas como?
-  fcil, ficamos neste canto e voc a chama. Marcos chamou-a, e Tereza se inquietou e se separou da
turma, andando vagarosamente. Foi em direo dele e se sentou num banco ali perto.
- Vov, que fao para que ela me veja?
- Pense como voc era quando estava com eles, pense firme, ajudo voc.
Marcos fez o que sua av recomendava e Tereza pde v-lo.
- Marcos!  voc?
Assustou-se e, com os olhos arregalados, observou-o dos ps  cabea. Marcos ficou sorrindo para ela.
- Est estranho, bicho! Que roupa  essa?
- Tereza, no se assuste, estou bem. Vim visit-la, porque senti saudade. Passei para o outro lado, o do Cordeiro.
- Por que fez isto?
- Vazio, medo, sofrimento. Tereza, minha amiga, nos iludimos muito com essa vida, pois damos uma de "contente", mas longe ficamos da felicidade.
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VERA LCIA MARINZECK DE CARVALHO / ANTNIO CARLOS
- Por que se veste assim, todo de branco? Est parecendo algum importante.  mdico?
- S estou limpo. Sim, sou mdico.
- Escondeu isto de mim, hein? Como est voc? Gosta deles? Vive rezando? Recebe muitas ordens? Est preso? Maltratam-no?
Marcos sorriu, esperou que Tereza parasse de fazer perguntas para respond-las. Sabia que neles tinham colocado muitas idias erradas sobre os trabalhadores do bem, 
e isso para que os temessem e evitassem que lhes pedissem ajuda.
- Tereza, minha amiga, aqui vocs tm uma idia falsa dos que vivem do lado do bem. Nada disso que pensa  real. Pedi auxlio, e primeiro me curaram, e agora no 
sinto mais dores, nem aquele frio horrvel. Estou em paz e moro com amigos num lugar de luz e beleza. Tenho orado, sim, mas porque me d prazer, e oro como se conversasse 
com Deus, nosso Pai, que nos criou. Vive-se l com disciplina, para se ter ordem: cada um colabora com o bem geral. Recebem-se menos ordens do que aqui. No necessito 
vampirizar e sou feliz.
-  mesmo, cara?  feliz? Como se alimenta?
- Onde estou, agora, tudo  diferente. Alimento-me do ar, na comunho com a Natureza, sustento-me pela vontade.
- Hum!... Voc fala difcil. Legal voc lembrar de mim, estando numa boa.
- Somos amigos, tive saudade. Agora j me viu, estamos como sempre. No quer que lhe feche seu ferimento?
- Ora! Quem  voc para isto? Sabe que tenho este ferimento aberto h tempo, desde que desencarnei.
- Eu o fecharei para voc e, assim, poder ficar sem esse incmodo.
- Se conseguir, acredito em voc.
D. Carmem ficou ao lado, mas Tereza no a viu, e ela sorriu ao neto mostrando-lhe confiana. Marcos, orando com f, pediu a Deus auxlio para a amiga. Concentrou 
toda sua fora e conseguiu fechar o ferimento, que Tereza tinha bem na altura do corao.
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MUITOS SO os CHAMADOS
- Marcos! Viva! Voc conseguiu! - exclamou maravilhada a moa, e se atirou nos seus braos, beijando-lhe a face.
Delicadamente, ele a afastou e sentou-se ao seu lado.
- Deus nos ama muito, a Ele deve sua cura. Tereza, voc no gostaria de mudar o modo de viver? Ter paz, ser feliz?
A moa se calou, pensativa. Mas j estava quase na hora de Marcos voltar, deveria ir. Despediu-se dela:
- Tereza, devo ir-me, porm deixo com voc um endereo. Nesse local, renem-se pessoas de bem em oraes espritas, e foram eles que me ajudaram. Pense, minha amiga, 
e v l, pois ser bem recebida, orientada, e conhecer o outro lado, a outra forma de viver dos desencarnados, a mais feliz. Irei embora, mas minhas oraes seguiro 
voc. Que Jesus nos abenoe!
Mudou seu pensamento, sua vibrao. Tereza no mais o viu e ps-se a cismar. Marcos e a av partiram.
Regressou ele contente, de vez que as visitas poderiam repetir-se com freqncia. Amava o trabalho e procurava fazer tudo com carinho. Dois meses se passaram...
Foi com enorme surpresa que foi levado pela av,  ala de recuperaes, para visitar uma pessoa querida.
- Tereza!
- Marcos!... Que bom v-lo!
- Minha amiga, que alegria v-la aqui!
- Guardei o endereo que me deu e pensei muito no que me disse. Voc me curou, mas no me sentia feliz, pois no estava bem comigo mesma. Acabei ficando inquieta, 
sem vontade de acompanhar as farras da turma, nem querendo vampirizar ningum. Fomos convocados para a reunio do Grande Mestre e tive medo de ir e eles descobrirem 
que mudara. Temi o castigo. Pensava muito em voc, e quis sentir-me bem como voc estava, naquele dia em que me visitou. Senti vergonha de mim e indaguei: "Como 
pedir ajuda, eu que sempre fui to m!" A, lembrei-me que Jesus havia perdoado Maria Madalena e que perdoaria a mim tambm, se pedisse a Ele. Arrependi-me realmente 
dos meus erros e chorei muito. Como no vampirizei mais ningum, estava
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-VERA LCIA MARINZECK DE CARVALHO / ANTNIO CARLOS
fraca e triste. E certo dia, enchi-me de coragem e fui at o local do endereo que me deu. Achei l tudo to lindo, entrei, e fiquei envergonhada num canto. Tudo 
o que escutei me fez chorar de arrependimento e pedi misericrdia, auxlio. Atenderam-me carinhosamente e... aqui estou!
- Tereza, como me alegro!
- Agradeo a voc tambm, sei que suas oraes me ajudaram nesta luta. Estou com uma vontade enorme de aprender a ser til. Marcos, poderei conversar outras vezes 
como voc?
- Sim, virei sempre v-la e, nas nossas folgas, poderei mostrar-lhe as belezas deste lugar bendito. Seremos bons companheiros!
- Quero ter muitos amigos, quero mudar, aprender.
Conversaram rnuito. Marcos deixou-a feliz e esperanosa e, como prometera, sempre que possvel ia visit-la. Tereza se recuperou rpido e logo passou a fazer pequenas 
tarefas e a ser til  Sociedade que a abrigava.

 Excurso
acompanharo ao estudo que faremos entre encarnados que se dedicam ao bem, e que prestam valiosos servios aos que sofrem.
Marcos simpatizou com seus novos companheiros que, tanto como ele, ansiavam por aprender. Lus iria como instrutor, fato que os deixou muito alegres.
Volitando, desceram  Terra, ficaram hospedados num Posto de Socorro, perto da Crosta, onde o servio era intenso. Foram visitar vrios grupos de oraes, e se encantaram 
ao ver tantos samaritanos espalhados pela cidade, num trabalho incansvel de ajuda.
- Marcos, vamos, logo mais, visitar o centro esprita onde sua irm Solange trabalha - informou Lus.
Marcos alegrou-se ao ver o local onde tantas bnos recebera e foi grande sua surpresa ao ver dr. Marcondes sentado  mesa.
- Dr. Marcondes - Marcos exclamou -, mas ele era um ateu!
- Marcos, sua cura no foi em vo - Lus explicou. Dr. Marcondes, estudioso e com esprito vido para aprender, se encabulou com sua inexplicvel cura e procurou 
entend-la nos estudos espritas. Converteu-se e, hoje, tem afeio ao Espiritismo e  um dos seus mais sinceros seguidores. Voc no se lembra? Foi ele quem o ajudou, 
desligando-o do seu corpo morto, impedindo que viesse a v-lo enterrado.
- Devo muito a ele, vendo-o aqui, fico feliz, porque sei que ter no Espiritismo o entendimento e a compreenso a que faz jus.
Ver o centro esprita como aprendiz era diferente para Marcos, de vez que o trabalho era muito e no ficaram como
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VERA LCIA MARINZECK DE CARVALHO / ANTNIO CARLOS
espectadores, pois ajudavam nas tarefas mais simples. Isto os deixava contentes. O nmero de necessitados era grande e a equipe mdica trabalhava sem cessar, com 
os mentores da casa dando ateno a todos.
- Como h desencarnados doentes! - Luzia exclamou.
- A maioria no pensa na sua prpria morte, no pensa como ser aps a separao do corpo, e outros vivem a encarnao como se nunca fossem morrer. A desencarnao 
traz muitas surpresas e uma delas  continuar sentindo as dores e as doenas que o corpo tinha - Lus elucidou-os.
Um grupo de arruaceiros tentou entrar no local e tirar alguns desencarnados que tinham pedido abrigo, mas os guardas os afastaram. Lus, vendo seus pupilos espantados, 
esclareceu:
- Os trabalhadores do bem acolhem sempre os que lhes batem  porta, porm h necessidade de manter a ordem, por isso no foi permitida a entrada deles aqui, porque 
somente queriam badernar. Aqui  um Posto de Socorro para doentes, so auxiliados os que pedem. E os irmos arruaceiros so, na verdade, mais necessitados, porque 
nem querem socorro. H para eles outros grupos, que os acolhem e instruem.
O trabalho comeou com a leitura do Evangelho.
Os trs excursionistas admiraram o processo de intercmbio entre os dois planos. Os mentores colocavam em filas os necessitados da incorporao medinica e de fluidos 
materiais. A incorporao para muitos  um choque de reconhecimento do seu estado de desencarnado.
Marcos pensou que muitos como ele se iludiam, rejeitavam a idia de que seu corpo estivesse morto e que, aproximando-se de um encarnado e vendo a diferena entre 
seus corpos, entendiam sua situao. E, tambm, porque se achavam muito materializados, os fluidos densificados, doados pelos mdiuns e encarnados presentes, ajudavam 
com mais rapidez a sanar suas doenas e deformidades perispirituais.
Os desencarnados chegavam perto do encarnado, com a distncia que variava de oitenta a vinte centmetros. O mdium, preparado, entrava em sintonia com a faixa mental 
do
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MUITOS SO os CHAMADOS
desencarnado. Fios saam da mente do mdium e se ligavam aos da mente do desencarnado. Todo este processo era feito ou supervisionado pelos mentores, trabalhadores 
desencarnados da casa. Lus aproveitou para elucid-los:
- Os mdiuns sintonizam facilmente com outras mentes. Por isso h necessidade de o encarnado, com mediunidade, aprender a lidar com ela. Esse aprendizado, chamado 
por muitos de "desenvolvimento",  muito necessrio ao mdium. E, quando o mdium trabalha para o bem, h sempre um desencarnado guia, mentor ou protetor, que impede 
que esse processo de sintonizao se faa em qualquer lugar. Conhecendo e aprendendo a usar sua mediunidade o prprio mdium saber como us-la.
- Como a mediunidade possibilita fazer o bem! - Luzia exclamou.
O socorro daquela noite foi grande. Aps socorridos todos os desencarnados, foram eles transportados para mais assistncia no plano espiritual, e a equipe mdica 
auxiliou os encarnados doentes, que aguardavam.
O trabalho estava para terminar e o mentor da casa se aproximou da pequena equipe de convidados e disse:
- Marcos, convido voc para fazer a orao de encerramento, atravs de sua irm carnal.
Emocionado e encabulado, Marcos voltou-se para Lus, que o incentivou com o olhar. Aproximou-se, enxugou as lgrimas da emoo e falou. Sua irm Solange, comungando 
os mesmos pensamentos, repetiu em voz alta:
- Irmos, como  importante esta reunio para todos ns, e mais ainda para os que sofrem e aqui buscam o conforto e o bem-estar para seus males. Foi nesta casa que 
recebi socorro. Encarnado, imprudente, no pensava na morte para mim. Meu dia chegou, enfim. Vaguei sem rumo e sofri muito, at que vim ter a este local, onde fui 
esclarecido e encaminhado. Agora, aprendo e comeo a ser til. Meu agradecimento  sincero a Deus e a todos os que aqui auxiliam, orientando e que tambm aprendem. 
Que as bnos do Pai caiam sobre ns e que estes trabalhos permaneam sempre, para a ajuda aos necessitados. Pai-Nosso...
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Afastou-se de Solange e ela, emocionada, agradecia a Jesus por seu irmo estar bem. Abraado pelos companheiros, Marcos chorou de alegria e gratido.
Findo o trabalho, os encarnados se despediram e voltaram aos seus lares. A pequena equipe de aprendizes tambm se despediu dos amigos espirituais, sendo convidados 
a visitlos novamente. Regressaram ao Posto de Socorro, onde se hospedavam.
- Nosso estudo agora - Lus esclareceu - ser numa cidade no interior, conhecida de Marcos. Visitaremos grupos de auxlios e aprenderemos preciosas lies.
- Como me ser agradvel voltar l! - Marcos exclamou.
- L, Marcos, voc foi, como encarnado, em busca da cura de uma mal fsico, agora volta para estudar, conhecer. Iremos amanh.
Foi com grande alegria que Marcos reviu a cidade. Ficariam alguns dias e se hospedariam num Posto de Socorro, no plano espiritual da citada cidade.
Visitaram locais de orao, reunio de estudos, onde pessoas unidas pela amizade ajudavam tanto encarnados como desencarnados.
Na tera-feira  noite, Lus levou-os a visitar uma casa singela, toda rodeada de folhagens e flores. Foram saudados pelos guardas e entraram, caminhando at os 
fundos. No quintal havia uma sala, local onde o grupo se reunia para os trabalhos espirituais. Encarnados ali estavam, Lus esclareceu seus pupilos:
- Este  o sr. Mrio Pozzi, dono da casa e orientador dos trabalhos espirituais; esta  d. Mirinha, sua esposa e Jerusa, sua filha; esta  Claudete e o Sr. Eduardo. 
Esto organizando o local para o trabalho da noite.
Foram acolhidos gentilmente pelos trabalhadores espirituais da casa e se acomodaram. O sr. Mrio viu-os e foi informado pela desencarnada Irm Maria, que se tratava 
de visitantes.
O movimento de desencarnados era grande. Grupos de jovens vieram assistir aos trabalhos, alguns necessitados de
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MUITOS SO os CHAMADOS
amor e caridade, outros para aprender a ser teis. Uma equipe mdica se preparava para atender a encarnados e desencarnados carentes.
O que chamou a ateno dos trs excursionistas foi uma fila que se formava, de desencarnados, os quais tinham nas mos folhas escritas e esperavam ansiosos pelo 
incio da sesso.
- Por que esto com estas folhas nas mos? - Henrique indagou curioso.
- Logo veremos - Lus esclareceu.- Aqui trabalha uma mdium que psicografa e estes desencarnados esto escalados para transmitir, pela psicografia, notcias aos 
seus entes queridos encarnados.
- E se acontecer de o mdium no poder comparecer?
- quis saber Luzia.
- Esses irmos esperaro por mais uma semana. Poucos querem responsabilidades de um trabalho medinico, entretanto muitos poderiam faz-lo.
- Como gostaria de escrever aos meus familiares, amo-os tanto - falou Henrique.
- Todos esses desencarnados esto ansiosos por mandar notcias, muito mais que os encarnados de receber. Continuamos vivos e ansimos dizer isto a eles, mas poucos 
encarnados acreditam - Lus comentou.
- Os meus no acreditam - Henrique concluiu. - Nunca iriam pedir notcias minhas. Para eles, estamos separados.
Com a chegada dos encarnados, calaram-se. Os do grupo foram tomando seus lugares, eram pessoas conscientes e com vontade de ajudar.
D. Mirinha fez uma linda orao, Claudete leu um texto do Evangelho e comeou o trabalho.
Os espritos da citada fila chegavam perto do instrumento que lhes servia e liam o contedo das folhas, que era um rascunho do que queriam ditar. Muitos se emocionavam 
e at choravam ao escreverem aos seus afetos. Lus esclareceu:
- A psicografia  importante para muitos desencarnados que, dando notcias aos seus, amenizam a saudade e a angstia-121

VERA LCIA MARINZECK DE CARVALHO / ANTNIO CARLOS
que seus familiares encarnados sentem. E estes, encarnados, ao saberem que os mortos dos corpos, desencarnados, continuam vivos, amando-os, suavizam sua aflio, 
e se desligam cada vez mais de seus afetos que partiram, ajudando-os a reiniciar na Vida Espiritual. Para muitos desses desencarnados que ditam aos seus,  como 
remorrer, isto , conseguir partir para o plano espiritual.
No prazo de duas horas muito se fez, pois muitos eram os desencarnados socorridos e os encarnados orientados. Com a orao do Pai-Nosso, terminaram os trabalhos 
da noite e as luzes se acenderam. Os mdiuns, contentes, fizeram alguns comentrios sobre o trabalho.
- Esto sendo entregues algumas das mensagens. Ser que todos os encarnados acreditam? - Luzia indagou a Lus.
- Vamos observar.
Trs pessoas liam as mensagens.
A primeira a receber foi um moo que demonstrou incredulidade, e pensava ao l-la:
"No  minha me, se fosse, teria citado a pouca vergonha do meu pai que casou com aquela mulher... Apesar da assinatura parecer... No sei..."
A segunda a receber era uma jovem que se esforava para no chorar de emoo. "Meu Deus! Respondeu s minhas indagaes. Meu pai escreveu-me, respondeu-me..."
A terceira, uma me saudosa, que tremia ao ler:
"Meu filho! Que saudade! Como Deus  bom!  a sua assinatura! Ele chamou-me pelo nome, era assim que costumava se referir a mim. Esta carta tem tudo dele: o jeito 
de expressar, o tom brincalho. Sei, meu querido, que est do lado de l e que nos ama como o amamos."
O grupo foi se desfazendo, e enquanto os encarnados voltavam ao lar, os donos da casa organizavam o local e, do lado de c, tambm havia despedidas e agradecimentos.
Lus aproveitou para novos esclarecimentos:
- Como vocs viram, com boa vontade, encarnados e desencarnados trabalham na ajuda aos necessitados. Muitos recebem esses benefcios como a boa semente e a plantam 
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MUITOS SO os CHAMADOS
boa terra, outros, conforme a Parbola do Semeador, recebem-na entre espinhos e pedregulhos. Os desencarnados que ditaram mensagens, fizeram-no cheios de esperana 
de serem acreditados, entretanto, quando h indiferena dos seus, di-lhes muito. Alguns encarnados querem provas difceis para conseguirem crer e, como nem sempre 
isso  possvel, no aceitam. Outros querem ler nas mensagens o que pensam ser certo, como aquele moo, a querer que a me condenasse o casamento do pai e, como 
ela no o fez, porque j possua conhecimentos e no censurava, mas compreendia e, no podendo as mensagens trazer discrdias, ele no acreditou.
- Nem todas as assinaturas saem iguais s que tinham quando encarnados, no  mesmo? - Luzia indagou.
- Para que se assemelhassem, necessitaria um treino maior do desencarnado com a mdium que recebe essas mensagens, num intercmbio consciente ou, preferentemente, 
pela psicografia mecnica. Se a assinatura  simples, fica mais fcil. Tambm, muitos nem querem assinar, ditam somente o nome. Esse fato para alguns encarnados 
 importante, mas para outros o que importa  o contedo. Luzia, para incrdulos tudo  impossvel e para os que crem, um ponto  letra. Quem acredita, j est 
consolado.
- Lus - perguntou Marcos -, todos esses encarnados que freqentam centros espritas e os mdiuns que l trabalham, j so os escolhidos?
- Infelizmente, no. Escolhidos so aqueles que uniram espontaneamente a sua vontade  vontade de Deus. Mdiuns e pessoas que freqentam uma casa esprita, desfrutam 
da oportunidade de aprender a serem teis. Assemelham-se a alunos que freqentam um educandrio, onde sua presena, por si s, no os ensina, porque se no se esforam, 
no adquiriro instruo e, do mesmo modo, podem ficar vrios anos no meio de mestres e sairem to analfabetos quanto aqueles que nunca foram ao colgio. A presena 
na casa esprita no  um fim, sim um meio propcio para que, compreendendo a realidade espiritual, a ela se integrem. Num centro esprita, entram em contato com 
desencarnados, e isso lhes prova a sobrevivncia
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da alma aps a morte do corpo fsico. Muitos desses desencarnados so irmos evoludos que vm para amparar em nome de Deus.
A quem tem mais, muito ser pedido. Aos mdiuns, a quem muito foi dado,  natural deles se esperar que muito seja pedido. No em atitudes externas mas, sim, na sua 
transformao interior.
O ato de fazer o bem proporciona ao indivduo no propriamente ter crditos, embora possa ter, mas seu principal prmio ser tomar-se cada vez melhor, at um dia 
vir a ser elevado. Fazendo o bem, tem-se a oportunidade de se tomar bom. Quando agimos assim, os maiores beneficiados somos ns mesmos, pois tivemos oportunidade 
de demonstrar ou, talvez, consolidar ensinos aprendidos. Praticar o bem do melhor modo que pudermos, com toda dedicao, no se importando a quem seja, deve ser 
a atitude dos escolhidos, pois Deus age assim e muito nos ama.
Muitos mdiuns, por freqentarem uma casa esprita e por beneficiarem a muitos atravs de seu corpo fsico, presumem-se desobrigados de sua integridade moral e fsica. 
Iludem-se, pois quase todo o mrito do bem que distribuem, cabe aos desencarnados socorristas que sofrem suas vibraes inferiores, prprias de um mundo rasteiro, 
tendo eles que nigienizar a aura do encarnado para que possam ser teis. Mesmo com esse trabalho, os nossos irmos desencarnados permanecem para ajudar e amar em 
nome de Deus. A esses mdiuns s cabero repreenses e censuras, porque devem mais do que os que no receberam essa oportunidade.
Fazer, por si s, no tem valor. O valor est na inteno pela qual o bem  feito. O fazer  importante, mas muito mais  o ser. Muitos pensam que ao realizar o 
bem no necessitam ser, todavia se enganam e sofrem. Mas os que praticam o bem e tomam-se bons, atenderam o chamado e sero os escolhidos.
O Espiritismo d muito esclarecimento, por isso aos espritas muito ser pedido: no em atitudes externas mas, sim, na vivncia interna.
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- MUITOS SO os CHAMADOS
Voltaram ao Posto de Socorro, onde ficaram servindo e ajudando os muitos necessitados que l se abrigavam, e isso at a noite de sexta-feira.
O pequeno grupo volitou pela cidade, vendo diversos locais iluminados de forma diferente, por luzes espirituais.
- Lus, que so estes pontos luminosos? - Henrique indagou, curioso.
- So os diversos locais onde grupos afins se renem em orao e ajudam aos irmos necessitados.
- E aquele l - apontou Luzia - na parte alta da cidade?
-  uma reunio de amor e caridade de que participam laboriosos e bondosos espritos, juntamente com atenciosos encarnados, a prestar grandes servios na Seara do 
Bem Lus fez uma pausa e finalizou: - Onde h luz, as trevas so dispersas!
- So esses os que no se recusam a trabalhar na Vinha do Pai! - Marcos exclamou, emocionado. Calaram-se, meditando.
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Muitos So Os Chamados  rever o local onde estivera encarnado, perodo difcil, doente, Marcos teve que conter a emoo.
 O centro esprita estava mais bonito, diferente, oferecendo aos encarnados melhores acomodaes e alojamentos.
A pequena equipe de aprendizes maravilhou-se com o trabalho que os obreiros desencarnados faziam no local. No plano espiritual, mantinham enorme hospital e Posto 
de Socorro para desencarnados necessitados.
Foram gentilmente recebidos por um de seus trabalhadores, que lhes pediu ficassem  vontade, e lhes explicou que ali grupos de estudos eram sempre bem recebidos.
Muitos encarnados aguardavam o incio dos trabalhos, para consultas. Lus pediu aos seus pupilos que se juntassem a eles e ouvissem seus comentrios.
- No sei se conseguirei sarar - comentou um senhor.
- H tempo estou doente, mas, como muitos dizem ter se curado, no custa tentar.
- vou sarar, tenho f, vim de to longe! - falou uma moa.
- Sinto dores terrveis, quem sabe Deus me atende atravs desses irmos - falou esperanoso um homem.
- Se no fizer bem, mal no me far! - comentou uma senhora.
- Minha filha vai se curar, tenho certeza! - convicta, falou outra senhora.
Marcos olhou-os, apiedou-se de muitos, lembrando-se dele mesmo. A maioria ali estava pensando s em si, na sua melhora fsica, pois vieram usufruir sem pensar sequer 
em doar. E no seriam doaes materiais, porque ali no se
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MUITOS SO os CHAMADOS
cobrava nada, mas darem algo de si, melhorarem suas maneiras de ser e viver. Muitos tinham f, acreditavam, outros nem isso. Aproximaram-se de duas mulheres.a mais 
moa tentava convencer a mais idosa da existncia de espritos, mas ela dizia com convico:
- No creio em espritos, de vez que se morre e no se volta mais  Terra, ou vo para o Cu, ou para o Inferno, aqui no viro mais.
- Voc no deveria pensar assim, porque a maioria tem o corpo fsico morto, e fica vagando junto a ns, encarnados. E tudo o que nos acontece de ruim,  interferncia 
dos desencarnados.
- Grande bobagem, os "desencarnados", como voc chama os mortos, nada podem fazer conosco.
- Hoje mesmo escorreguei, e foi um esprito que me empurrou!
- No creio. Que veio fazer aqui, ento? Penso curar-me pela fora mental do sensitivo. Lus esclareceu:
- Estas duas senhoras so exemplos de dois extremos. Uma no cr na interferncia dos desencarnados, e a outra acha que tudo o que acontece  por causa dessa interferncia. 
Ambas esto erradas, uma por no crer e a outra por colocar toda a culpa na parte espiritual, at mesmo por um simples escorrego e por acontecimentos corriqueiros 
na vida encarnada.
O movimento no plano espiritual era maior que no plano terreno. Muitos desencarnados, julgando ainda estar no corpo fsico, buscavam curas dos seus males, enfileirando-se 
com os encarnados.
Grande era o nmero de trabalhadores do plano espiritual. A equipe mdica trabalhava incansavelmente, ao lado dos guardies e dos samaritanos, encarregados de ajudar 
os desencarnados sofredores.
- Este  um dos trabalhadores da casa,  mdico - Lus apresentou.
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Encantaram-se com a simplicidade do apresentado, que cumprimentou-os, sorrindo.
- Espero que se sintam  vontade entre ns.
- Que prazer conhec-lo! - Marcos disse. - Curou-me., fui curado aqui quando encarnado. Porm no dei o devido valor. - Sorriu amorosamente, incentivando-o a continuar, 
e Marcos completou: - O senhor no se importa?  indiferente com a ingratido de muitos?
- No pensamos no bem que fazemos. - respondeu tranqilo. - Preocupamo-nos somente com o bem que deixamos de fazer!
Os mdiuns foram chegando e comeou o trabalho da noite.
Houve grande silncio e todos se aquietaram, tanto encarnados como desencarnados, para ouvir a palavra sr. Waldemar:
- Irmos, somos de muitas formas chamados a conhecer a Verdade, o bom caminho. Todas as religies crists orientam seus seguidores a praticar o bem, a amar o prximo. 
Mas  o Espiritismo que muitas orientaes nos tem dado, esclarecendo-nos os ensinos de Jesus de maneira clara e raciocinada. Abenoada seja a Doutrina codificada 
inclusive pelos muitos esclarecimentos de Allan Kardec, pois ela nos chama e nos d oportunidades de fazer, para sermos os escolhidos. Irmos, pelo Espiritismo somos 
sempre chamados. Alguns pela cura de seus males fsicos, porque, desenganados pela Medicina terrestre, so curados pelos bons espritos, que lhes provam inclusive 
a continuidade da vida aps a morte do corpo material. Porm muitos, surdos a esses chamamentos, justificam suas curas, negando que foram curados pelos desencarnados. 
Voltam com sade a viver, como se nada tivesse acontecido, e se recusam a se transformarem em escolhidos. Tantos se livram, pelo Espiritismo, de obsesses, de "encostos" 
como dizem na simplicidade, mas continuam sofrendo, na existncia desencarnada: os bons continuam bons, os maus, s vezes, piores ainda.
Outros so chamados pela psicografia, a provar que os entes queridos, cujos corpos morreram, no se acham separados,
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MUITOS SO os CHAMADOS
mas ausentes, e que podem se comunicar conosco. Cada encarnado que recebe uma mensagem, recebe tambm um apelo para crer. O Espiritismo prova-nos de muitas formas 
que continuamos vivos aps a morte do corpo fsico e que necessitamos pensar nessa sobrevivncia, porque a desencarnao acontecer para todos os chamados "vivos". 
E nossa vivncia no plano espiritual tanto pode ser boa como ruim, pois ser de conformidade com a conduta que estamos tendo aqui como encarnados. Vamos, irmos, 
atender ao chamado que estamos recebendo, despertemos e passemos do caminho largo, o das facilidades, para o caminho estreito, mudando nossa forma de viver, tomando-nos 
bons.  necessrio entender e praticar os ensinos de Jesus e nos esforarmos para sermos escolhidos.
Em seguida, comeou a atender os encarnados doentes.
Enquanto Henrique e Luzia ajudavam o grupo que estava dando passes de irradiao nos enfermos, Lus e Marcos foram at a sala onde faziam o trabalho de orientao 
aos desencarnados, ou seja, trabalhos de desobsesso.
Marcos no s viu desencarnados doentes, como tambm maus e vingativos, mas todos eram socorridos, orientados e encaminhados para assistncia no plano espiritual.
- Lus - Marcos comentou -, quando aqui estive, passei por este trabalho, e estavam comigo dois desencarnados que queriam se vingar e disseram ter agido inclusive 
instigados pela vontade de dois encarnados.
- Alguns desencarnados vingativos aguardam os encarnados, a quem querem prejudicar, carem na vibrao infeliz para poderem agir. Certamente, conseguiram prejudic-lo, 
em virtude de voc ter ofendido a outros e eles, revidando, desejaram-lhe o mal.
- Que ser deles? Por que estavam comigo?
- Se receberam orientao aqui e foram encaminhados, esto bem. O porqu, o motivo de eles quererem se vingar, pode estar no passado distante. Se um dia recordar 
suas outras existncias, poder saber o motivo.
- Devo t-los ofendido, gostaria de pedir-lhes perdo.
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- Numa rixa, h culpa de ambos os lados. Ofendidos devem perdoar e no guardar rancores, e ofensores devem arrepender-se e reparar a falta. Se eles se encaminharam, 
perdoaram-no e, se um dia houver necessidade, a vida os aproximar. O que importa, Marcos,  que voc tambm foi prejudicado por eles e os perdoou.
- Lus, lembro-me, agora, das propostas que fiz e que no cumpri. Mas a culpa tambm foi de Mara, que me impediu.
- Marcos, meu companheiro, no jogue a culpa de seus atos em outros. Se quisesse, se tivesse realmente vontade, teria feito. Deixou-se dominar por ela, porque no 
fundo era isto o que desejava. Mara  realmente voluntariosa e, para voc, foi mais cmodo atend-la. Do mesmo modo, muitos aqui no plano espiritual dizem: "No 
trabalhei espiritualmente, quando encarnado, no atendi a conselhos e apelos de amigos, porque minha esposa, ou meu esposo, filhos etc. impediram-me". Outros desculpam-se 
dizendo que eram pobres, no tinham nada para dar, eram necessitados. So desculpas que do a si mesmos. Esquecem que pobre materialmente pode dar de si fluidos, 
bondade, horas de trabalho, oraes. Necessitados? H tantos modos de se passar de necessitados a colaboradores, e todos tm essa obrigao, s no se transformam 
os acomodados e os que realmente no querem. Nem a doena fsica  empecilho para quem quer ser til. O cego pode usar a palavra; o mudo, as mos, etc. Exemplos 
no faltam: desencarnou h pouco Jernimo Ribeiro Mendona, um tetraplgico e cego, que com seus livros e palestras chamou muitos irmos ao caminho do bem e, com 
seus exemplos, incentivou muitos a se resignarem, a serem como ele.
E os necessitados espiritualmente - Lus continuou, aps ligeira pausa - podem mudar de hbitos e atitudes, evangelizando-se e seguindo o caminho do bem, porque 
assim as dificuldades sero ultrapassadas.  sempre mais fcil colocar a culpa de nossas falhas e fracassos, nos outros, como se eles fossem donos do nosso livre-arbtrio. 
Quando queremos, sempre damos um jeito, embora reconhecendo que, em muitas ocasies, os empecilhos so fortes e que se necessita de muita coragem para venc-los. 
Mas este no foi o caso que mencionamos.
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Marcos abaixou a cabea, mas foi abraado amorosamente pelo instrutor, pois entendeu que no recebera uma censura, porm preciosa lio.
-  verdade, Lus, no foi o meu caso. A "porta larga" me foi mais cmoda, mais fcil. Tentava isentar-me, culpando Mara. Aqui, neste local, prometi dedicar-me aos 
pobres, s crianas doentes, carentes de mdicos e remdios. Adiei, deixei para amanh o que poderia ter feito e... no tive amanh! Penso mesmo que adiaria sempre 
e sempre esse "amanh".
- Quando podemos fazer,  nosso dever realizar. Adiar, ou no fazer,  tarefa no cumprida,  lio no aprendida. Sofremos muito quando podemos e no fazemos o 
bem.
- Ser, Lus, que um dia serei digno de trabalhar em nome de Jesus?
- Poucos de ns so dignos de trabalhar em nome de Jesus, e, como a Sua misericrdia  grande, todos os de boa vontade podero faz-lo. Basta querer!
Quando todos foram atendidos, reuniram-se os mdiuns na frente da figura de Jesus e oraram a Prece de Critas: uma chuva de fluidos salutares, coloridos, caiu sobre 
todos, terminando o trabalho da noite.
Lus e seus pupilos despediram-se dos amigos da casa, os quais to bem os receberam e seguiram para o ptio. O instrutor, aproveitando os ltimos momentos em que 
estariam juntos, pois a excurso terminara e agora iria cada um para seus afazeres na Colnia, elucidou-os:
- So duas as parbolas em que Jesus se refere aos muitos que so os chamados e poucos os escolhidos. A dos Trabalhadores da Vinha, em que o Senhor contratou trabalhadores 
em diversas horas do dia e pagou-os igualmente. Aprendemos nessa Parbola que o Senhor da Vinha sai a chamar pelos trabalhadores, dizendo ser muito importante que 
eles estejam  disposio do chamado Divino. Prepararemo-nos para a hora em que formos chamados, para que estejamos prontos a atender. Porm, o que acontece conosco 
 que sempre estamos envolvidos nos acontecimentos materiais, preocupados com o mundo fsico, e ficamos apegados ao que
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gostamos. Permanecemos escravizados aos bens terrenos, como se essa fosse a finalidade da existncia humana. E ficamos surdos aos chamamentos!
Na Parbola da Festa das Npcias, h os escolhidos. Primeiro o Senhor mandou seus servos chamarem os convidados, que se recusaram ao apelo. E as recusas continuam 
as mesmas at hoje, quando se trocam as coisas materiais pela realidade espiritual. So preocupaes com propriedades materiais, prazeres sensuais e divertimentos 
sociais. E muitos no tm coragem para atender ao convite do Senhor, envergonhando-se porque, para a maioria, quem no corre atrs dos bens materiais  considerado 
tolo, digno de compaixo. E as recusas so desculpas mentirosas e enganadoras.
O convite se deu para todos, por toda a Terra, para bons e maus. E os chamamentos continuam, pois todas as religies convidam os homens ao "grande banquete". S 
que no basta freqentar uma seita, embora seja isso importante, porque as religies podem nos dar um ambiente propcio, mas no  o bastante, temos que fazer, construir 
em ns "a vestimenta nupcial", isto , purificar-nos, iornarmo-nos bons.
Depois de os chamados  chegarem ao "banquete", o Senhor v um que no est com a "veste nupcial" e pergunta o porqu de estar presente sem estar devidamente vestido. 
O convidado emudece. O Senhor ordena que seja lanado s "trevas exteriores". O mundo fsico, Jesus o comparava s trevas, e o mundo espiritual,  Luz, ao Banquete.
E escolhidos so somente aqueles que se esquecem de si mesmos, que amam a Deus e as criaturas acima do egosmo, do orgulho e da vaidade.
Nossa responsabilidade  grande, pois no significa que, por estarmos desencarnados,  que somos os escolhidos, porque ainda estamos sujeitos a outras reencarnaes. 
Somos peregrinos e, por perodos, estamos ora desencarnados, ora encarnados. Somos sempre chamados e, por nossas atitudes,  que seremos os escolhidos. Como donos 
de nosso destino, podemos decidir sobre nosso amanh. Para adquirir
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felicidade, necessitamos estudar, trabalhar, meditar. No nos redimimos por atos externos, que podem at ser teis, mas s o amor, o fazer por amor,  que nos redimir.
Estamos sempre sendo chamados, vamos, portanto, atender ao Pai Amoroso que, de braos abertos, recebe carinhosamente a seus filhos prdigos.
Aps pequena pausa, Lus finalizou:
- Bem-aventurados os que fazem por onde ser escolhidos. Porque muitos so os chamados...
Uma nova esperana motivou Marcos, porque teria outras oportunidades, para purificar-se e atender ao convite do Banquete, e se esforar para ser um dos escolhidos.
Emocionados, partiram. Do alto, via-se a Terra Azul, este abenoado educandrio celeste... 

   FIM
